sábado, 31 de julho de 2010

A Minha Pátria

Amélia Rodrigues

Pátria... se todo o ouro e todas as riquezas
Que o universo contém: tronos, palmas, grandezas,
Prá fazer-me trair-te, alguém trouxesse aqui,
Nada disso, jamais, eu trocaria por ti...

Se fosses a mais pobre, a mais desamparada
De todas as nações, cativa, desolada,
Sem recursos, na treva, exausta, a definhar,
Quereria eu morrer para te libertar.

Se não pudesses dar-me o refúgio do teto,
Um pedaço de pão, o beijo de um afeto...
Se os sacrifícios meus desprezasses, enfim,
Eu te amaria ainda assim...

Quando às vezes contemplo e percorro na mente
Mares, terras d’além, não descubro, realmente,
Nada que comparar se possa ao brilho teu...
Pátria... melhor que tu apenas vejo o céu...

Quando alguém junto a mim teu nome pronuncia,
Sinto um gosto de mel... ressaibos de ambrosia...
É que me vem à boca, em doce comoção,
O amor que te consagro e me enche o coração.

Quando a tua bandeira esplêndida tremula,
Minha alma corre a ela, extasiada a oscula,
Num transporte de amor a enrola toda em si,
E julga e sonha e crê que se fundiu em ti...

Pátria formosa e grande... a teus pés prisioneira
Aqui tens, prá servir-te, a minha vida inteira...
És minha mãe... aceita o que eu valer e for
Pois tudo é teu, só teu, Pátria do meu amor...

nasceu na Fazenda Campos, Freguesia de Oliveira dos Campinhos, Município de
Santo Amaro da Purificação, Estado da Bahia em 26 de maio de 1861.
Foi notável poetisa, professora emérita, escritora consagrada,
teatróloga, legítimo expoente cultural das Letras da Bahia.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Os Dez Mandamentos do Chimarrão

Texto: Pércio de Moraes / Jornal “Tchê”
Ilustrações: Clóvis Medeiros 
I – NÃO PEÇAS AÇÚCAR NO MATE
O gaúcho aprende desde piazito que e por que o chimarrão se chama também mate amargo ou, mais intimamente, amargo apenas. Mas, se tu és dos que vêm de outros pagos, mesmo sabendo poderás achar que é amargo demais e cometer o maior sacrilégio que alguém pode imaginar neste pedaço do Brasil: pedir açúcar. Pode-se pôr água, ervas exóticas, cana, frutas, cocaína, feldspato, dólar, etc., mas jamais açúcar. O gaúcho pode ter todos os defeitos do mundo, mas não merece ouvir um pedido desses. Portanto, tchê, se o chimarrão te parece amargo demais, não hesites, pede uma Coca-Cola com canudinho, tu vais te sentir bem melhor!

II – NÃO DIGAS QUE O CHIMARRÃO É ANTI-HIGIÊNICO
Tu podes achar que é anti-higiênico pôr a boca onde todo mundo põe. Claro que é. Só que tu não tens o direito de proferir tamanha blasfêmia em se tratando de chimarrão. Repito: pede uma Coca-Cola com canudinho. O canudo é puro como água de sanga (pode haver coliformes fecais e estafilococos dentro da garrafa. Não nele).

III – NÃO DIGAS QUE O MATE ESTÁ QUENTE DEMAIS
Se todos estão chimarreando sem reclamar da temperatura da água, é porque ela é perfeitamente suportável por pessoas normais. Se tu não és uma pessoa normal, assume e não te fresqueies. Se, porém, te julgas perfeitamente igual às demais, faze o seguinte: vai para o Paraguai. Tu vais adorar o chimarrão de lá.

IV – NÃO DEIXES UM MATE PELA METADE
Apesar da grande semelhança que existe entre o chimarrão e o cachimbo da paz, há diferenças fundamentais. Com o cachimbo da paz cada um dá uma tragada e passa-o adiante. Já com chimarrão, não. Tu deves tomar toda a água servida, até ouvir o ronco da cuia vazia. A propósito, leia logo o mandamento seguinte.

V – NÃO TE ENVERGONHES DO RONCO NO FIM DO MATE
Se, ao acabar o mate, sem querer fizeres a bomba “roncar”, não te envergonhes. Está tudo bem, ninguém vai te julgar um mal-educado. Este negócio de chupar sem fazer barulho vale para a Coca-Cola com canudinho, que tu podes até tomar com o dedinho levantado.

VI – NÃO MEXAS NA BOMBA
A bomba do chimarrão pode muito bem entupir, seja por culpa dela mesmo, da erva ou de quem preparou o mate. Se isso acontecer, tens todo o direito de reclamar. Mas, por favor, não mexas na bomba. Fale com quem lhe ofereceu o mate ou com quem lhe passou a cuia. Mas não mexas na bomba, não mexas na bomba e, sobretudo, não mexas na bomba.

VII – NÃO “DURMAS” COM A CUIA NA MÃO
Tomar mate solito é um excelente meio de meditar sobre as coisas da vida. Tua mateias sem pressa, matutando... E às vezes te surpreendes até imaginando que a cuia não é cuia, mas o quente seio moreno daquela chinoca faceira que apareceu no baile do Gaudênio... Agora, tomar chimarrão numa roda é muito diferente. Aí o fundamental não é meditar e sim integrar-se à roda. Numa roda de chimarrão tu falas, discutes, ris, xingas, enfim, tu participas de uma comunidade em confraternização. Só que esta tua participação não pode ser levada ao extremo de te fazer esquecer da cuia que está em tua mão. Fala quanto quiseres, mas não esqueças de tomar teu mate, que a moçada está esperando.

VIII – NÃO ALTERES A ORDEM EM QUE O MATE É SERVIDO
Roda de chimarrão funciona como cavalo de leiteiro. A cuia passa de mão em mão, sempre na mesma ordem. Para entrar a roda qualquer hora serve mas, depois de entrares, espera sempre a tua vez e não queiras favorecer ninguém, mesmo que seja a mais prendada prenda do Estado.
 
IX – NÃO CONDENES O DONO DA CASA POR TOMAR O 1º MATE
Se tu julgas o dono da casa um grosso por preparar o chimarrão e tomar ele próprio o primeiro, saibas que o grosso és tu. O pior mate é o primeiro, e quem o toma está te prestando um favor.

X – NÃO DIGAS QUE O CHIMARRÃO DÁ CÂNCER NA GARGANTA
Pode até dar. Mas não vais ser tu, que pela primeira vez pegas na cuia, que irás dizer, com ar de entendido, que chimarrão é cancerígeno. Se aceitaste o mate que te ofereceram, toma e esquece o câncer. Se não der para esquecer, faze o seguinte: pede uma Coca-Cola com canudinho que ela... etc., etc..

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Uma Casa

Minha mãe conheceu aquele que seria o seu marido quando morava nesta casa, na distante década de quarenta, na pacata e litorânea Itajaí. Há muito ele já se foi, e da casa, diz ela, resta apenas um pequeno pedaço. Mas as lembranças, certamente, restam todas. E numa recente e costumeira reunião familiar de domingo, esta senhora de 83 anos nos surpreendeu com um desenho que reproduz a casa onde morou, até sair para viver ao lado do meu pai nos campos de cima da serra.

Foi a primeira vez que a vi assim, inteira. Até então, só conhecia alguns detalhes que apareciam como fundo de fotografias, como as janelas laterais e a pequena mureta embaixo onde ela posou sentada junto a primos, o jardim florido onde fez pose de mocinha comportada, e a porta da frente com a escada de dois ou três degraus onde posou ao lado do seu noivo.

Naquele domingo em que descobrimos seu escondido talento artístico, ela nos disse que precisava achar um lápis mais macio para desenhar e que já tinha uma folha de papel quadriculado onde faria outro desenho, “... mais retinho e na proporção certa”. Antes que ela percebesse, o original já estava comigo e só o devolvi no outro dia, depois de digitalizado. Hoje, assim, como quem não quer nada, comentei sobre os lápis de cor, ao que me respondeu que estavam todos em ordem, sem faltar nenhum.

Então está tudo certinho, mãe. Aguardamos por mais lembranças suas!
Gravura: D. Néli (lápis sobre papel vegetal)

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Uma Tirinha no Pedaço [doze]

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico, escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.