sábado, 26 de novembro de 2011

Cinco Patas a Menos!


Este texto é uma atualização deste aqui. Foi necessário escrevê-lo para atualizar a quantidade de bichos, que às vezes por aqui, duma hora para outra, muda rapidamente. A gatinha branca manchada de amarelo e preto, que ainda era uma criança mas já estava maior que a mãe, nem três semanas depois daquela postagem morreu atropelada em frente à nossa casa. Fato, aliás, que já virou rotina, afinal, não há como confinar um gato numa casa, e nem o faríamos, se fosse possível. Nossos bichanos têm total liberdade para entrar e sair de casa e do terreno, para passear na rua ou nos telhados da vizinhança. Eles sabem que a qualquer tempo sempre haverá uma porta ou fresta de janela abertas, um canto sossegado e um prato com ração e água à disposição. Com exceção do Pepe, que foi espantado pelos cachorros, e um ou dois que sumiram sem se despedir, todos voltam e permanecem conosco até morrerem de velhos, ou... atropelados!

Essa realidade merece atenção. Com o passar dos anos, a observação do comportamento de dezenas de gatos, e mais recentemente, de dois cachorros que se associaram aos gatos na propriedade da nossa casa, fez-me elaborar a seguinte tese: gatos não sabem atravessar rua!

Duvida?

Pois eu sustento que não importa o tamanho, ou o movimento, ou o tipo de calçamento, atravessar uma rua é uma odisséia para os gatos. É algo acima de seu entendimento, uma atitude temerária e reprovada até mesmo pelos anjos da guarda felinos, um instante em que nem a lei das sete vidas vigora. Na verdade, é o instante em que ela é mais frequentemente derrogada. Não digo que eles são burros, não, pelo contrário. Está mais para alienação, ou incapacidade de raciocínio à beira de uma calçada. Funciona assim: o gato decide que o outro lado da rua é o paraíso, onde pululam ratos gordinhos em tocas feitas de queijo, e tenros filhotes de passarinho se oferecem em rasantes suicidas. No momento que ele pisa no meio-fio, acontecem duas coisas. Primeiro, um bloqueio mental, quando o candidato a omelete fica surdo e só enxerga o outro lado da rua e, em seguida, o anjo da guarda se arrepia e grita enquanto volta correndo prá dentro de casa:
— Vai atravessar? Tô fora, maluco!

Cachorros são diferentes. Claro, se bobearem também são atropelados, mas eles se cuidam mais. Normalmente olham para os lados e esperam os carros passarem. Mesmo aqueles mais tansinhos, que se atiram de qualquer jeito rua adentro, ao perceberem qualquer outra coisa que represente um perigo desviam, ou estaqueiam, ou voltam, ou aceleram, tentando evitar o atropelamento. Quase sempre dá certo.

Gatos, não!

Naquele instante do bloqueio mental e a fuga do anjinho, o omelet... quer dizer, o gato está surdo e só enxerga o outro lado da rua, lembram? Então. Nada mais no mundo importa, ele só sabe que tem que chegar do outro lado, que ele vê como se olhasse por dentro de um tubo, nada mais no mundo existe, apenas aquela rua entre ele e os ratos e o queijo e os filhotes, aí ele se atira em direção ao paraíso, se descabelando numa correria desatinada que só termina lá do outro lado... quando não fica pelo caminho, claro! E quando esta correria começa ainda de dentro do terreno, a travessia vira uma roleta russa, e as chances de virar omelete aumentam consideravelmente.

É ou não tese de doutorado? Alguém se habilita?

E como um atropelamento só é pouco...
No aniversário da filha mais nova, numa terça-feira à noite do início de outubro, a mãe desta gatinha atropelada, uma gata nanica preta com manchas brancas, irrequieta, zanzou entre nós o tempo todo. Na quinta-feira, dei-me conta que não tinha mais visto a gata desde então. No sábado, demos a gata como desaparecida de vez. Mas, na madrugada de domingo, ao chegarmos em casa vindo de um jantar, encontramos os cachorros alvoroçados sob uma janela. No lado de fora, entre o vidro e a grade de ferro, estava a gatinha, enrolada, quieta, com os olhos arregalados. Ao trazê-la para dentro de casa, nos deparamos com um ferimento aberto, enorme, logo acima da pata traseira encolhida, e com um osso quebrado saltando para fora conforme o movimento que o bicho fazia. Nenhum gemido, apenas os olhos arregalados.

Foi medicada e permaneceu em observação na clínica veterinária até na terça-feira seguinte, para ver se reagiria aos antibióticos. O osso quebrado, o fêmur, já estava morto. Na quarta-feira, já mais forte e com a infecção sobre controle, teve sua pata traseira esquerda amputada.

O que aconteceu com ela nunca saberemos ao certo. Supomos que tenha sido atropelada na terça, na noite do aniversário, e o ferimento ter sido causado pelo choque com alguma saliência do assoalho do carro. Onde ela ficou até no domingo de madrugada não sabemos, nem o que passou para evitar os cães que infestam nossa rua. Provavelmente buscou um lugar alto, pois o cheiro do ferimento a denunciaria facilmente. Nem os nossos cães, que todos os dias saem à rua e frequentam os terrenos baldios em frente à nossa casa, a encontraram. E só imaginamos o esforço e a dor para sair do seu esconderijo e voltar à nossa casa e, mais que isso, conseguir subir até a soleira da janela passando pela grade de ferro.

Apesar da agonia de ver um bicho mutilado tentando retomar sua rotina, impressiona sua capacidade de adaptação à nova realidade. Continua irrequieta e caiu algumas vezes, mas rapidamente vai conseguindo saltar e correr, desviando de cadeiras e pés de mesa, com a mesma agilidade de sempre. A única diferença mais visível, além da pata faltando, é que parece mais quieta que o habitual. O miado, raro, é pouco mais que um sopro. Ah, sim! E com uma pata a menos ficou um pouco mais nanica que antes!
Fotos: Francis
Ilustração: Colafina

10 comentários:

  1. Eu gosto dos seus contos sobre os seus bichos. Nada tenho a acrescentar sobre a sua tese, pois que pouquíssimo sei de animais, e nada sei de gatos. Nunca os tive por perto.
    Agora que tenho cachorro e descobri que eles são um ser-humano como outro qualquer, observo mais de perto qualquer animal. Ontem vi um gato sair em disparada de um portão, rumo à rua, e frear as quatro patas, deslizando um pouco sobre o chão de terra (não há calçadas na cidade), ao mesmo tempo que voltou correndo em direção ao portão. Tive tempo de ver um calango correndo dele. O gato estava brincando, ou tentanto pegar o calanguinho. Foi uma cena engraçada.
    Outra cena, essa triste, ocorreu na manhã de terça-feira passada. Estava dirigindo na estrada, devagar porque havia acabado de passar por um trevo, e o cão estava na minha pista. Como a outra pista estava livre, eu levei meu carro prá cá. O cão, magro, feio, abandonado e leso, deu uma de gato e quando viu o carro correu prá mesma direção que eu havia ido e... adeus bichinho.

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  2. Pois é, Quequel! Eu me incomodo com a quantidade de bichos aqui em casa, sempre foi um exagero, antes gatos, e agora mais os 2 cachorros. Há quem diga até que não gosto deles, mas não é verdade. O problema é só a quantidade. Mas não posso negar que, apesar dos tropeços, a nossa convivência é uma diversão!

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  3. Nunca atropelei gato ou cachorro, mas há muitos anos atropelei uma lebre indo de Lages para São Joaquim, num sábado à noite. Ela bateu debaixo do carro, e não tinha nenhum machucado aparente. É uma sensação muito desagradável...

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  4. Cola, eu tenho outra teoria: Os gatos são muito egocêntricos! Se acham donos do mundo, eles escolhem o dono. Alias o dono, não! a casa do dono... então quando esses seres que só chegam perto da gente quando estão carentes e nunca o contrário, cismam de atravessar uma rua, eles pouco se ligam que está vindo um homem... e que esse homem vem em cima de bólido pesado e em velocidade. pensam que vão parar e...pimba!

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  5. ué... aqui o Robertão virou betinho?!!

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  6. Fala, Betão! De teoria em teoria, a tese é confirmada, ou descartada.
    Esta afirmação de que o gato escolhe a casa e não o dono da casa é generalizada, e eu até já reforcei isso. Mas acho que não é bem assim sempre. Aqui em casa, mesmo que os gatos não nos procurem para cafunés e dengos, eles estão sempre onde nós estamos, deitados perto de nós, ou zanzando à nossa volta, e se vamos para fora de casa nos acompanham. É comum eu me ver cercado pelos gatos e cachorros, esparramados em volta da cadeira, quando estou no computador! :)

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  7. Os gatos são muitos independentes. Isso os faz parecer arrogantes, ou egocêntricos, como vc diz. É esta a principal característica que os diferencia dos cachorros, por exemplo, que são extremamente dependentes, da comida à higiene, tanto pessoal quanto do ambiente. Apesar do afeto que fazem questão de demonstrar, essa dependência dos cachorros desanima... rsrs

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  8. Ahahah!! Vc virou Betinho porque um dia vc se cadastrou assim no Google!!

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  9. ah,é? vou desempatar pros cachorros: Heroísmo!Vide Lassie, Ritintin, Scooby...(Scooby-Doo mais ou menos).

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  10. Arrááá!! Ponto pro Betinho... quer dizer, pros cachorros!!

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