terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Nós Merecemos o que Queremos?

Crítica a respeito da decisão dos empregados da Caixa, agência Lages/SC, durante a greve de 2005, de interromper a paralisação iniciada apenas um dia antes. Lages, SC, outubro 2005.

Em abril deste ano recebemos pelo CaixaM@il uma mensagem do nosso colega Nelson Guimarães na qual transcrevia o texto de Aldo Novak, sobre frase de James Allen: “Por que? Por que não? Por que não eu? Por que não agora?". Naquela época, chamou-me a atenção pela sua simplicidade e pela lógica do raciocínio.
No curso de computação somos sistematicamente orientados a pensar logicamente. As coisas na nossa cabeça com o tempo tendem a se resumir em [unsb e zeros], [se isto então aquilo], [falso ou verdadeiro]. Mas, claro, nem tudo é lógico. Aliás, pouca coisa o é. Gente é ilógica! Talvez isso explique o estigma que persegue e rotula como fora da casinha os que se dedicam em tempo integral à ciência informática. Para estas pessoas, é tão difícil entender e aceitar a imponderabilidade das coisas e das pessoas, que estes malucos preferem o isolamento das linhas de código e dos compiladores ao convívio pernicioso do pensamento não lógico. Ainda se fosse não pensamento lógico, vá lá...
Lembrei daquele texto hoje, ao sair da nossa assembléia que decidiu pela interrupção da greve.
Mesmo sem a preocupação com a sistemática, e sem nem nos darmos conta, na semana passada acabamos seguindo o roteiro sugerido: — Por quê? Por que estamos reunidos? Para questionar nosso presente, e discutir nosso futuro, com certeza. O que temos hoje é suficiente? É o que precisamos? É só o que a Caixa pode nos oferecer? Pior: será que é só o que merecemos? E o que queremos para nós amanhã? Sobrevivermos, simplesmente? Queremos mais dignidade, pelo menos. Mais respeito. Queremos ser ouvidos, e ser valorizados. Nada de extraordinário, só o básico. Tipo assim, pagar as contas em dia, entende? — Por que não? Por que não dizer à Caixa da nossa insatisfação, da nossa discordância? Se a Caixa mexe há tanto tempo no nosso bolso, por que não podemos mexer no bolso da Caixa? Assim seremos ouvidos, com certeza. Por que a Caixa ofende nossa inteligência ao negar um reajuste mínimo, ao mesmo tempo em que alardeia um lucro bilionário no primeiro semestre do ano? Por que temos que acreditar que quatro por cento é tudo que pode ser dado? Por que não usarmos do recurso mais radical ao nosso alcance? Por que não entrarmos em greve? — Por que não nós? Se a adesão à greve ainda não é consistente, por que não fazermos a nossa parte, mesmo que para isso tenhamos que dar o primeiro passo? Por que não podemos ser a primeira agência a fechar no interior? Por que temos que esperar pela iniciativa de Florianópolis, Chapecó, Santo Antônio da Boa Vista, Icó, Brasília ou Santana do Parnaíba? Se é o que queremos, e no que acreditamos, por que não podemos fazer? — Por que não agora? Se não fizermos nossa parte porque outro ainda não fez a sua, corremos o risco de ficarmos esperando uns pelos outros, e nada ser feito. Por que não fazemos nossa parte agora? Estaremos dando exemplo para quem espera por um, e ao mesmo tempo estaremos dizendo estamos com vocês àqueles que tomaram a iniciativa antes de nós. A força do todo é a soma do esforço de suas partes. Por menores que elas sejam.
Tomamos uma decisão madura. Cumprimos os compromissos assumidos com as gerências. Negociamos as situações imprevistas. Paralisamos a agência na segunda-feira, dez de outubro, como nunca havia sido feito, e sem tropeços, sem tumulto e sem um desgaste significativo. Fomos conscientes e responsáveis na execução daquilo que responsável e conscientemente decidimos. Mas no final da tarde...
Na minha opinião, fizemos tudo certo. Tomamos a decisão de parar, paramos, demos o nosso recado com competência. Com certeza encorajamos a parar muitos que esperavam pela iniciativa de alguém. Demos o exemplo. Chamamos para que nos acompanhassem, da mesma forma que nós abraçamos os pioneiros das capitais, parados desde a semana passada. Só que agora, mesmo sabendo da possibilidade de paralisação de várias unidades do estado, a decisão tomada em nossa assembléia do final da tarde foi de interromper a greve!
Agora passam alguns minutos das duas horas da manhã de terça-feira. Não sei o que vai acontecer hoje nas outras agências, nas outras cidades, nos outros estados. Pelo menos para mim, não importa se vão parar ou não. Independente do que aconteça em âmbito nacional, sinto que o que fizemos não passou de fogo de palha. Faltou-nos a coragem, não acreditamos o suficiente, talvez. Não cabe a mim – nem a ninguém – questionar a decisão de nenhum dos colegas presentes na assembléia. Não tenho este direito, cada um sabe os motivos da decisão que tomou – a de manter a greve, a de interrompê-la, a de abster-se também, e esta decisão deve ser respeitada por cada um de nós. O problema é que não conseguiria dormir sem externar o sentimento de frustração que me assolou, por não conseguir entender por que paramos no nosso melhor momento. Apelei para a lógica, e mesmo assim não encontrei uma resposta. Provavelmente porque não haja apenas uma resposta. Talvez ainda precisemos do exemplo e da iniciativa dos outros para apoiar nossas decisões. Talvez não sejamos maduros e conscientes o suficiente para saber o que queremos. Talvez mereçamos mesmo só o que a Caixa nos oferece.
Acenamos com um caminho, e nos contentamos com um atalho.
Alexandro Reis.
(11out2005)

Nenhum comentário:

Postar um comentário