terça-feira, 26 de novembro de 2013

12. O Coronel e o Estranho Caso da Muda

O coronel Gumercindo Neto pigarreou, tirou o palheiro do canto da boca e deu uma última cuspida na poeira do chão batido do galpão, que respingou na bota do Vassourinha, antes de repetir, irritado:
— Já disse que não sei onde está a muda! – levantou-se do banquinho e deu dois passos até o portão que dá para a mangueira – Só porque ela estava aqui na estância não quer dizer que eu tenha que saber onde anda!
Cuspiu de novo e acertou o Traíra passando, que estaqueou do susto, depois olhou de canto, rosnando, e foi esfregar a cara na grama para limpar a baba grudenta.
— Mas não é possível que não saiba, Arrudão, você mora aqui! – o sabidinho que fala javanês andava de um lado pro outro tropicando nos buracos do chão do galpão.
— Claro que moro, ora essa! Mas já perguntou pros outros, por acaso? Eles não saem daqui, parecem uns carrapatos, só falta virem de muda!
— Eles viram a muda?
— Mas quem disse que eles viram a muda? Eu não disse que eles viram a muda, eu disse que só falta eles virem de muda! Mu-dan-ça... – soletrou rosnando – Trazer as tralhas, o cachorro, a sogra... Entendeu, sabidinho?
— É uma indireta? – perguntou o arrumadinho de olho azul, sentado com as pernas boleadas num banquinho do outro lado do galpão, batendo a brasa do palheiro com a unha do mindinho. Nem esperou a resposta do Arrudão:
— Por que se for, diga, que eu já tenho outro sítio pra ir, é dum parente meu lá no Campo Belo, ele disse que não precisa nem pedir, é só aparecer. Não tem nem portão prá abrir...
— Báh... Mas nem vou comentar, arrumadinho, era só o qu... áááái!! Mas o que é que deu neste bicho? Traíra dos infernos, o que é que deu em você, demonhento? – o Traíra fez um risco por baixo do portão, e sumiu, vingado pela cuspida no olho – Vocês viram isso? Viram isso? Me mordeu o garrão esse cusco imprestável!
— Não mude de assunto, Arrudão... E então, ninguém tem nada pra dizer?
— Uma muda? De quem é que vocês estão falando? – perguntou o esquentadinho da cidade.
— Eu até tinha... – assoprou o enrugadinho transcendental, afundado na rede, junto com a fumaça dum palheiro de carqueja brava – Mas tô meio sem vontade!
— Pois desembucha, enrugadinho, prá ver se esta criatura para de incomodar com essa história de sumiço!
— Então tá, então eu digo. Mas só porque o Arrudão pediu. Ó, a última vez que eu vi a muda ela tava encostada ali na cerca da mangueira, perto do portão. Daí, foi só o tempo d’eu virar, quando vi, não vi mais ela... puf!, tinha sumido. E ó, não quero fazer fofoca, mas eu acho que foi o sabidinho mesmo que carregou ela ali pros lado da lagoa. Pediram, né, falei!
— Claro que fui eu, sua anta, e deixei ela lá embaixo perto do pontilhão, e não tá mais lá! Um de vocês deu sumiço nela, só pode! O colafina, por exemplo, desde o primeiro dia foi contra eu trazer a mu...
— Mas quem é essa muda de que vocês estão falando? – insistiu o esquentadinho da cidade, atalhando o sabidinho.
— Quero deixar bem claro que estou chegando agora, não sei de nada, e nunca vi essa tal de muda, nem mais gorda nem mais magra – emendou o engatadinho tântrico, equilibrando-se num pé só e aloitando com um palheiro que mais parecia um charuto.
— Ser contra não significa que eu tenha sumido com ela, sabidinho! Afinal, que direito eu tenho? A vida é tua, você faz o que quiser com ela, e com a muda.

As circunstâncias pesavam contra o bostinha colafina. Desde que o sabidinho declarou suas intenções, ele questionou a sua utilidade, demonstrando que existem formas mais práticas de resolver suas necessidades, ainda mais que é coisa pro futuro, só para quando ele vier morar por aqui depois de aposentado. Mas o sabidinho, depois que encasqueta, quem convence?

— Ó, não é que eu queira semear a cizânia, mas o colafina foi várias vezes lá pros lados do pontilhão, sozinho, facãozão na cintura, e tal, sei lá, mas ó, aí tem coisa. Veja bem, não que eu tenha visto, não, isso não, só me disseram, de fonte fidedigna, entende? – emendou o enrugadinho.
— Fidedigna, né? – ironizou o bostinha colafina. – O doutorzinho cascagrossa também foi praqueles lados, então por que não perguntam pra ele?
— Eu já disse antes que o sabidinho fez bobagem, mas a vida é dele, ele é maior de idade e faz do jeito que quiser, então eu não me meto. Mas que fez bobagem, isso fez! – vaticinou o doutorzinho, com os braços cruzados e balançando a cabeça com o beiço esticado na direção do sabidinho.
— O sabidinho fez bobagem com uma muda? – perguntou o esquentadinho, já meio nervoso por ninguém responder suas perguntas.
— Fez bobagem coisa nenhuma! Fez bobagem coisa nenhuma! – pulou lá do canto o vassourinha pro meio do galpão abraçado num garrafão de água de privada – Tá certo o sabidinho! Daqui um tempo, quando ele precisar, a muda vai estar crescida, encorpada, roliça, daí é só usar, e ninguém vai ter nada com isso! Tá certo o sabidinho!
— Volta pro canto, ô sua fonte fidedigna! Pensa que não sei que é você que está enchendo a cabeça do sabidinho, dizendo que eu estou envolvido no caso dessa muda? Até o enrugadinho já pensa que fui eu que...
— Você está tendo um caso com uma muda, colafina? Minha nossa! Logo você, casado, todo certinho? Cara, só porque é muda não quer dizer que não seja filha de Deus, poxa vida, não esperava isso...
— Do que é que você está falando, esquentadinho? ‘Cê tá louco? – e o colafina virou pro sabidinho – Viu só o que você está fazendo, sabidinho? Viu? Tá contente? Essa bobagem já está virando um entrevero de facão no escuro!
— Mas eu é quem trouxe a muda, ninguém podia mexer com ela! Era minha, pro meu uso! – protestou o sabidinho no meio do galpão, abrindo os braços, exaltado.



— Óuuunnnnn... Óuuunnnnn... – o engatadinho tântrico levitava na posição de lótus, surgindo dentre a fumaceira sobre a rede onde o enrugadinho carquejava, enquanto entoava um mantra entre uma baforada e outra do palheirão – Vamos todos respirar profundamente. Inspirem... cóf! Acalmem os ânimos... Expirem... Pacifiquem a alma... Inspirem... cóf! Harmonizem o espírito... vamos lá, agora expir...
— Mas ela não pode ter sumido por conta própria? Não pode? – questionou o bostinha colafina, enquanto o engatadinho continuava falando prá ninguém. — Por que algum de nós tem que estar envolvido no sumiço dela? Você não acha que...
— Afinal, alguém, por-fa-vor, pode me dizer quem é essa muda? Como é o nome dela? Não tem família? Ninguém viu ela, um parente, vizinho, sei lá, alguém que possa informar onde ela se meteu?
— Como assim o nome dela, família, vizinho? Deixa de ser tanso, esquentadinho! – estrilou o sabidinho – Nós estamos falando de eucalipto. Eu-ca-lip-to! Árvore, entendeu?
— Eucalipto? Como assim, eucalipto? Esse bochincho todo por causa de uma... muda de eucalipto?
— Mas é claro! Você pensou que fosse o qu...
O banquinho acertou de prancha a testa do sabidinho, que caiu de comprido no chão do galpão, levantando poeira!

O esquentadinho não apareceu mais na estância do Arrudão desde que levou um corridão de lá, imediatamente após o acontecido. O sabidinho continua com a marca do nó da madeira na testa, e jura que não sabe o porquê, para sorte do esquentadinho.

Até hoje, o sumiço da muda continua um mistério.
Ilustração: Colafina

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Uma Tirinha no Pedaço [vinte e seis]

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico,  escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.

sábado, 14 de setembro de 2013

Beiçudo

Escarafunchando uma papelada encontrei, numa pasta antiga cheia de lembranças, um envelope verde garrafa. Foi endereçado a mim, há 37 anos, por uma de minhas irmãs enquanto eu, seu irmão mais novo, servia o Exército na cavalaria em Brasília. Eu estava lá há pouco mais de duas semanas quando ela escreveu aquela carta de 3 páginas contando as novidades, e no final, em vez de um P.S., anexou uma meia folha onde desenhou como ela imaginava os cavalos lá do 1º Regimento de Cavalaria de Guarda Dragões da Independência.
Óóóóiiiiinnnnnn!!! Que fofos! Não são uma gracinha?
Pois é... O problema é que a realidade era um pouquinho diferente. Obriguei-me, então, a mostrar-lhe como as coisas realmente aconteciam por lá. Não me perguntem como a resposta à carta de minha irmã está comigo, eu não faço ideia. Mas o importante é que os fatos ficaram devidamente esclarecidos. Ou não?


Prá facilitar as coisas, vou mostrar um por um. Por favor, não reparem o estilo, o que realmente conta é a clareza da situação dos récos – ou, os conscritos, como são chamados os viventes antes de se tornarem soldados! – nas seis primeiras semanas de um período de treinamento puxado e muito, muito dolorido!


Ô, saudade!

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Poemículo, cinco - Melô do Esquecido


Acomodo as lembranças
Em caixotes no porão.
Quando mais preciso delas,
Nunca sei onde estão.


domingo, 31 de março de 2013

Uma Tirinha no Pedaço [vinte e cinco]

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico,  escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Jorge Amado, o retrato da Bahia

Jorge Amado nasceu em 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, em Ferradas, distrito de Itabuna (BA). Filho de Amado de Faria, fazendeiro de cacau, e Eulália Leal, é o primogênito de três irmãos. Antes que completasse dois anos, ele e a família se mudaram para Ilhéus, fugindo de uma epidemia de varíola. No litoral sul da Bahia, em meio a lutas políticas e disputas pela terra, o menino Jorge Amado ganhou intimidade com o mar, elemento primordial de sua obra. A região cacaueira também se tornou um dos cenários preferidos do autor, presente em livros como Terras do sem-fim, São Jorge dos Ilhéus e Tocaia Grande.

Com onze anos foi mandado a Salvador para estudar no Colégio Antônio Vieira onde, três anos depois, conseguiu seu primeiro emprego: repórter policial no Diário da Bahia. Em seguida, passou a trabalhar em O Imparcial. Em 1928, fundou com amigos a Academia dos Rebeldes, reunião de jovens literatos que pregavam “uma arte moderna, sem ser modernista”.

Jorge Amado filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e chegou a ser preso, quatro anos depois, em 1936, no Rio de Janeiro, acusado de participar da Intentona Comunista. Naquele ano, Jorge Amado também publicou um de seus livros mais líricos, Mar Morto, que inspirou o amigo Dorival Caymmi a compor a música É doce morrer no mar.

Na década de 50, após um turbulento período de exílio na Europa, a literatura do baiano passou a dar mais relevo ao humor, à sensualidade e ao sincretismo religioso. O livro Gabriela Cravo e Canela, escrito em 1958, marca essa nova fase que, como o escritor preferia dizer, representou “uma afirmação e não uma mudança de rota”. As mulheres inventadas por Jorge Amado consagraram-se no imaginário popular e ganharam as telas da televisão e do cinema. Nas décadas de 70, 80 e 90, os livros do autor viraram filmes e novelas.

Com um quadro clínico agravado pela cegueira parcial que o deprimiu por impedi-lo de ler e escrever, o escritor morreu em agosto de 2001, poucos dias antes de completar 89 anos. Seu corpo foi cremado e as cinzas enterradas junto às raízes de uma velha mangueira, no jardim de sua casa, ao lado de um banco onde costumava descansar, à tarde, em companhia de sua mulher, Zélia Gattai.

Centenário – Neste ano em que Jorge Amado completaria 100 anos, uma série de homenagens percorrerá o Brasil. Entre as festividades estão o filme Capitães da Areia, da cineasta Cecília Amado, neta do escritor; a peça Dona Flor e seus dois maridos, que entra em cartaz no Rio de Janeiro, e o lançamento da caixa Mulheres de Jorge Amado, uma coletânea de quatro romances do escritor: Dona Flor e seus dois maridos, Tereza Batista Cansada de Guerra, Tieta do Agreste e Gabriela Cravo e Canela. Em Salvador, Jorge Amado foi tema do carnaval de 2012 no famoso circuito Barra-Ondina. As escolas Imperatriz Leopoldinense (RJ) e Mocidade Alegre (SP) também homenagearam o escritor.
Fonte: Revista Funcef, ed 56, jan/fev12.
Ilustração: André Koehne

O mundo só vai prestar
Para nele se viver
No dia em que a gente ver
Um maltês casar 
Com uma alegre andorinha
Saindo os dois a voar
O noivo e sua noivinha
Dom Gato e Dona Andorinha”

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Dia do Índio: Somos Todos Parentes?

Por Carlos Henrique Magalhães e Silva

Minha mãe é uma índia da etnia Wapixana, nasceu na maloca do Xumina, ao lado da maloca da Raposa, no extremo leste da Terra Indígena da discórdia entre brancos e índios: a Reserva Raposa – Serra do Sol, em Roraima, que ganhou espaço na mídia nacional por virar objeto de antagonismo entre partes envolvidas e interessadas e outras nem tanto! Digo isso porque a discussão envolveu, na época, inclusive pessoas cujo único propósito era a autopromoção.

Quando me pego refletindo sobre isso é porque carrego, talvez, um sentimento de culpa de não ser completamente solidário com a causa indígena e porque talvez o que restou de índio em mim corresponda somente à carga genética que herdei. Minha mãe ainda cultiva alguns costumes completamente compreensíveis de sua ascendência, apesar de hoje já ser inteiramente urbanizada. Ainda gosta de comida apimentada ao extremo, comer carne de sol com xibé (farinha de mandioca misturada com água ou leite) e peixe todo santo dia, entre outros; mas também gosta da programação da TV por assinatura, que julga mais divertida, e nem pensa numa vida sem luz elétrica e água gelada. Será que existe algum problema nisso?

Li recentemente uma reportagem onde um dos seguidores dos irmãos Vilas Boas relata que após uma ausência de 15 anos voltou ao Xingu e se surpreendeu com os antigos amigos índios em roupas “brancas”, camisas e calções da Seleção Brasileira de futebol, e perguntou: “Vocês abandonaram seus costumes de andarem nus e agora vestem as roupas dos homens brancos?” e lhe responderam: “E você, porque não usa mais as roupas do tempo de Cabral?”. Creio que o amigo índio quis dizer é que não existe nada de corrupto em assimilar algo que lhe traga mais conforto. Uma coisa é a preservação dos costumes e da cultura, da medicina, da culinária, dos ritos festivos e crenças, etc., e outra completamente diferente é abrir mão do crescimento que vem da miscigenação e do usufruto daquilo que queremos e gostamos. Não existe nada de errado em usar o Google ou outro meio de pesquisa da Internet e nem em ter opção de escolha na programação da TV por assinatura.

Sou suspeito, no entanto. Ao mesmo tempo em que me apego ao sentimento preservacionista do índio insistente em mim, não consigo abrir mão das benesses da urbanidade. Meu espírito sangra com as notícias de não sei quantos campos de futebol de matas virgens dão lugar às plantações mecanizadas por dia, que assisto nos telejornais, porque estou convicto que poderíamos viver com menos. Já pensaram que existem plantações de arroz na China que são do mesmo tamanho há milhares de anos?

Não tenho nenhuma dúvida de que os nativos brasileiros têm paixão pela sua terra, e que cuidam dela com muito mais zelo que a maioria. Isso é próprio do indígena: pescar só o que vai consumir, preservando os estoques pesqueiros na certeza de aquilo poderá faltar no futuro caso seja explorado em demasia; caçar só o suficiente para o sustento da família, na firme certeza de agindo assim suas fontes de proteínas estarão garantidas; desmatar somente a parcela que a natureza não reclamará, enfim, se orientar pela certeza que seus descendentes também têm o direito de usufruir dos recursos naturais que ele mesmo já desfruta. Isso não é a ideia de Sustentabilidade?

Ainda não me dei por derrotado. Sou naturalmente otimista! O respeito que tenho por essas ideias me guia na certeza que podemos fazer algo melhor por nosso planeta. Que poderemos dormir mais tranquilos sem ter pesadelos com tsunamis, enchentes, quedas de barreiras, neve nos trópicos e toda sorte de esquisitices de alterações climáticas (e tudo resultado da intervenção desajeitada do homem). Poderemos sonhar com um futuro melhor se ressuscitarmos o espírito preservacionista que um dia todos tivemos, resgatarmos o índio primitivo de cada um, pois se eles estavam aqui antes de todos, é razoável pensar que de algum modo todos somos parentes. Enfim, ser um pouco índio todo dia e não somente no dia 19 de abril.

Carlos Henrique Magalhães e Silva é gerente geral da Agência Asa Branca, da Caixa Econômica Federal, em Roraima.

Publicado in: Jornal da Caixa (intranet).

quinta-feira, 8 de março de 2012

Uma Tirinha no Pedaço [vinte e quatro]

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico,  escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

11. O Coronel e as Certezas da Vida

(Esta é uma obra de pseudo-ficção. Qualquer coincidência com personagens abstratos, fatos inventados e lugares imaginados não será mera semelhança!)

O coronel Gumercindo Neto deu um pulo para trás tamanho o susto que levou. Não fosse a parede de tábuas do galpão teria se estatelado na mangueira. Engasgou com o baque.
— Que foi que você disse? – gaguejou, com o queixo tremelicando e as pernas frouxas.
Du bist zu dick, schmerzt mein Rücken, Rufen sie die roan!1 – repetiu, impaciente, a Cheirosa.
— Ai, minha Nossa Senhora do Bom Parto! Você está falando?!?! – o coronel estava com falta de ar.
Und wer noch?2 – bufou, olhando para os lados.
— Tetê! Tetê! Me acuda, mulher!
— Ela disse que você precisa emagrecer. Vai ter que encilhar o Rosilho. – disse o Traíra lá de dentro do galpão.
— Ah! É? E como é que você sabe, seu espertinho? Por acaso você fala esta língua esquisita?
O coronel nem se deu conta que estava falando com um cachorro.
— Esta língua esquisita é alemão, coronel. E sim, eu falo alemão.
— Ah! É? E posso saber onde foi que você aprendeu alemão?
— Na escola, coronel. Onde mais?
O coronel baqueou de vez, e desabou num banquinho com os olhos arregalados, arritmia e tremelique, balbuciando:
— Mas... mas... mas você também fala? Tetê! Tetê! Corra, mulher, acuda aqui! Ai, minha Santa Bárbara Manjerona, é o fim do mundo!
— É São Gerônimo...
— Uquêêê? – esganiçou o coronel, escorregando de lado no banquinho.
— São Gerônimo! Santa Bárbara e São Gerônimo! – corrigiu o Traíra.
O coronel desabou, e ficaram os dois com os pés pra cima. Ele e o banquinho.

Acordou com o Traíra e a Cheirosa decidindo quem ia chamar o primo Ptolomeu, vizinho do Arrudão e veterinário afamado.
— Eu tô bem, não precisa chamar veterinário... – levantou-se com as mãos nos quartos, gemendo – e vamos esclarecer direito essa história. Que raio de escola é essa? Onde é que fica?
A cor já estava voltando, e quase nem tremelicava.
— Ah! Fica logo ali, no caminho para a cachoeira, não tem como errar!
— Pois quero ver com meus próprios olhos. Traíra, traz o Rosilho aqui para eu encilhar!
— Olha, coronel, talvez não seja uma boa hora prá... 
— Não é boa hora prá que, cão?
— É que o Rosilho está na lagoa agora, e não gosta de ser incomodado... – disse o Traíra, se afastando de lado.
— Rosiiilho! – berrou o coronel — Mas credo, era só o que faltava agora, bicho ter hora prá ser montado! Rosilho! Vem já aqui, animal!
Calm down, scream is bad for your health, and to my ears!3 – já veio dizendo de longe o Rosilho.
— E agora, o que é isso? O que ele disse? – perguntou ao Traíra, como se o cão tivesse a obrigação de traduzir tudo o que os outros bichos diziam.
— É inglês, coronel, e ele disse que gritar não é legal.
— Inglês? Você sabe inglês também? Ai, meu Santo Onofre, vou ter um troço!
And then, my tasty filly! Are you fine?4 – o Rosilho fungou no pescoço da Cheirosa, que retribuiu o dengo rindo baixinho, maliciosa.
Ich bin besser, meine Hengst schamlose!5
— E agora? – perguntou, jogando o baixeiro no costado do Rosilho.
— Ãh... melhor não saber, coronel.

Descendo a trilha em direção ao mato, encontraram a Quilemeio subindo.
Via libera Im ascensus!6
— E aí, Traíra... vai esperar que eu pergunte?
— É latim, coronel. Quer que a gente saia da frente para ela poder subir.
— Latim? Mas... mas ela é uma vaca! Uma vaca, falando latim! – explodiu o coronel – Ah! Nãão! E você também fala latim?!?! E aprendeu na mesma escola! Ai, minha Santa Gertrudes, proteja as minhas coronárias!
Longum erit?7 – perguntou a Quilemeio, plantada no meio da trilha.
— Ela está com pressa, coronel.
— Pois ela que saia do caminho, ou dê a volta!
Primatus est ascendere!8
— Ela invocou uma lei de trânsito. E nem é estudante de direito...
O coronel Arrudão desistiu de discutir com a Quilemeio, afinal, era só uma vaca... Saiu da trilha para ela passar, e depois continuou a descida calado. Aquilo não podia estar acontecendo, vaca não fala latim, deve até ser pecado, já imaginou o que o padre vai dizer quando ele contar a história?
— Vou ser excomungado! – suspirou.
סגור9
O coronel se assustou, e retesou a rédea, fazendo o Rosilho escorregar as patas no barro da trilha estreita. Só olhou para o Traíra, que entendeu o recado.
— É hebraico, coronel. Ele é o porteiro, e disse que a escola está fechada!
— Porco, falando hebraico? Justo um porco? Não falta mais nada... ai, minha úlcera duodenal, valei-me meu São Policarpo! Que estrovenga é essa aí na frente? E cadê o morro que tinha aqui? O que é que...
אם אתה רוצה לדבר עם המנהל שוב בשבוע הבא. אחר הצהריים.10
Foi interrompido pelo porco com voz de locutor constipado.
— É para o senhor voltar na semana que vem para falar com o diretor. É que ele viaja muito, sabe como é...
— Não, Traíra, eu não sei como é... E quem disse que eu quero falar com o diretor? Nem sei quem é esse cara! Aliás... quem é esse cara?        
— Amigo seu, coronel, o sabidinho q...
— O sabidinho que fala javanês?!?! – atropelou o coronel. – Foi ele que fez isso aí? – e apontou com o queixo e o beiço esticado a muralha cinzenta de salpico grosso de três metros e meio de altura e ornada com uma espiral de arame farpado em toda a extensão, com um portão de ferro de duas folhas, fechadas à solda com chapa metálica antimíssil, com três dobradiças em cada lado e cinco trancas reforçadas, cada uma com um cadeado maior que o outro, encimado por uma câmera de segurança mirando o narigão do Arrudão, na frente de onde o porco se postava qual guarda da rainha britânica, com o queixo levantado e um molho de chaves imensas pendurado num cinto militar que quase cortava em dois seu barrigão pelado cor-de-rosa.
— “Isso aí”, coronel, é a escola.
— Mas como pode ser? Aqui tinha um morro, agora tá achatado feito um campo de futebol! E quem plantou aqueles eucaliptos lá fechando a trilha da cachoeira? Falando nisso... como é que eu vou para a cachoeira agora?
 הבמאי צריך לחכות שוב. בשבוע הבא. אחר הצהריים.11
— Tem que passar pela escola, coronel, é só pagar uma taxinha prá ir, outra prá voltar. Mas o porco só libera depois de falar com o diretor. Semana que vem.
O Arrudão entrou em parafuso, bufou e corcoveou, enquanto despejava impropérios dirigidos ao mundo inteiro, incluindo o porco, o Traíra e o sabidinho, e esbravejava espalhando perdigotos:
— Como assim pagar para usar a trilha da cachoeira? É a minha cachoeira!! Com que autorização o sabidinho acabou com o morro? É o meu morro!! Quem mandou ele erguer este muro horroroso? É o meu terreno!! O que que ele...
— O senhor vendeu o morro pro sabidinho, coronel. Não lembra mais? – interrompeu o Traíra, enquanto tentava desviar da baba do Arrudão.
— Como assim vendi o morro? Como assim vendi o morro? Não vendi o morro coisa nenhuma!! – estava quase em pé na sela – É bem capaz mesmo que eu vou vender o morro, seu... seu... mas nem que a vaca tussa em latim vou me desfazer de um palmo que seja das minhas terras!! Nunca, nunca, eu prefiro a morte, prefiro a mor...

— Marido, acorda! Acooorda!! Que gritaria é essa? – assustou-se a Tetê com os gritos e chutes do Arrudão, embolado no tapete – Quié que tá fazendo aí no chão, homem? Eu te avisei que torresmo na janta só pode dar em pesadelo! – ralhou enquanto se protegia com as mãos dos perdigotos que voavam em sua direção.
— O morro... a vaca... – o coronel suava de esguichar, sentado no chão piscando os olhos estralados no pretume do quarto enquanto gaguejava e babava com os beiços tremendo.  
— O quié que tem a vaca? – perguntou a Tetê.
— O morro... o morro tá achatado... eu vendi o morro pro sabidinho?? Me diga, vendi, vendi?? Ele achatou o morro... tem uma escola de bicho... o Traíra dá aula...  tem eucalipto na trilha... tem muro farpado... não passa nem formiga... tem que pagar prá ir na cachoeira... prá voltar também...  os bichos tudo falam que nem a gente... e a vaca... a vaca...
— O quié que tem a vaca, homem? – insistiu a Tetê.
— A vaca fala latim!
A dentadura acertou bem no meio da testa do Arrudão, que quase se afogou com a água do copo que a Tetê juntou da mesinha de cabeceira e jogou no seu rosto prá ver se ele acordava do pesadelo. 
—  Fale coisa com coisa, homem, não estou entendendo nada!

E o coronel Arrudão descreveu, no atropelo, ainda soluçando e tentando controlar a respiração depois da dentadurada, o sonho que teve com os bichos da estância.
— Vendi ou não vendi Tetê? Já não sei mais o que eu fiz, tô muito confuso, Tetê, me ajude... – implorou, com os olhos arregalados.
Então a Tetê puxou o coronel de volta para a cama e o aninhou em seu colo, como uma mãe a um filho carente.
— O seu primo Ptolomeu gosta muito das terras dele, não é mesmo?
— Quê? – soluçou.
— Seu primo. Tem um amor muito grande pela terra, não tem?
— Nossa... demais, Tetê. Ele nem me deixa ajeitar a estrada com máquina porque pode estragar o campo! Mas o que tem a ver o meu primo com...
— Você acha que algum dia ele plantaria pinnus nos campos onde as vacas dele engordam?
— Jamais, mulher, jamais. Ele morre antes que isso aconteça.
— Pois o seu amor pela sua terra é muito maior, marido! Eu sei, e todo mundo também sabe, que você não venderia sua terra a ninguém, um pedacinho que fosse por dinheiro nenhum no mundo.
— Um pedacinho que fosse... – repetiu o coronel, já ressonando.
— Então, marido, sossegue. Os campos do seu primo já estariam cobertos de pinnus antes que você sequer pensasse em vender um palmo desta terra que você ama tanto – e o coronel  aninhou-se no colo da Tetê. – Sossegue, marido, sossegue, foi só um pesad...
A Tetê acordou assustada com a campainha estridente do telefone quase no seu ouvido, e derrubou o fone dentro do penico ainda vazio.
— Alô! – grunhiu.
— Quem? – rosnou.
— Não, é claro que eu não estou bem! Isso são horas prá assustar os outros? Você sabe que horas são? Você não dorme aí onde voc... – Aqui ainda é madrugada. Eu estava sonhando... Você e o marido estavam no sonho!
— Quem é? – bocejou o Arrudão.
— É o sabidinho, lá de não sei onde – e passou o fone.
— Fala, sabidinho... Quê? Não, não apareceu ning... Trator de esteira? Vai fazer o que no morro? Hmmm... Vai ladrilhar até onde? Unhum... Não, não, tudo bem, agora é teu mesmo... Caçamba do quê? Ahh... Sei...
— Puis... Olha, sabidinho, não sei se a caçamba chega... Se bem que... Dá pra gente usar o trator de esteira pra arrumar o morro? Sabe como é, tão cortando os pinnus do Ptolomeu, e os caminhões acabaram com a estrada!

Glossário:

1- Você está muito gordo, minhas costas doem, chame o Rosilho!
2- Quem mais seria?
3- Acalme-se, gritar faz mal para a sua saúde, e para os meus ouvidos!
4- E aí, minha potranquinha gostosa! Você está bem?
5- Já estou melhor, meu garanhão safado!
6- Sai da frente, que eu estou subindo.
7- Vai demorar muito?
8- A preferência é de quem sobe!
9- Está fechada!
10- Se querem falar com o diretor, voltem semana que vem. Período da tarde.
11- Tem que esperar o diretor voltar. Semana que vem. Período da tarde.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Uma Tirinha no Pedaço [vinte e três]

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico,  escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.