sábado, 26 de novembro de 2011

Cinco Patas a Menos!


Este texto é uma atualização deste aqui. Foi necessário escrevê-lo para atualizar a quantidade de bichos, que às vezes por aqui, duma hora para outra, muda rapidamente. A gatinha branca manchada de amarelo e preto, que ainda era uma criança mas já estava maior que a mãe, nem três semanas depois daquela postagem morreu atropelada em frente à nossa casa. Fato, aliás, que já virou rotina, afinal, não há como confinar um gato numa casa, e nem o faríamos, se fosse possível. Nossos bichanos têm total liberdade para entrar e sair de casa e do terreno, para passear na rua ou nos telhados da vizinhança. Eles sabem que a qualquer tempo sempre haverá uma porta ou fresta de janela abertas, um canto sossegado e um prato com ração e água à disposição. Com exceção do Pepe, que foi espantado pelos cachorros, e um ou dois que sumiram sem se despedir, todos voltam e permanecem conosco até morrerem de velhos, ou... atropelados!

Essa realidade merece atenção. Com o passar dos anos, a observação do comportamento de dezenas de gatos, e mais recentemente, de dois cachorros que se associaram aos gatos na propriedade da nossa casa, fez-me elaborar a seguinte tese: gatos não sabem atravessar rua!

Duvida?

Pois eu sustento que não importa o tamanho, ou o movimento, ou o tipo de calçamento, atravessar uma rua é uma odisséia para os gatos. É algo acima de seu entendimento, uma atitude temerária e reprovada até mesmo pelos anjos da guarda felinos, um instante em que nem a lei das sete vidas vigora. Na verdade, é o instante em que ela é mais frequentemente derrogada. Não digo que eles são burros, não, pelo contrário. Está mais para alienação, ou incapacidade de raciocínio à beira de uma calçada. Funciona assim: o gato decide que o outro lado da rua é o paraíso, onde pululam ratos gordinhos em tocas feitas de queijo, e tenros filhotes de passarinho se oferecem em rasantes suicidas. No momento que ele pisa no meio-fio, acontecem duas coisas. Primeiro, um bloqueio mental, quando o candidato a omelete fica surdo e só enxerga o outro lado da rua e, em seguida, o anjo da guarda se arrepia e grita enquanto volta correndo prá dentro de casa:
— Vai atravessar? Tô fora, maluco!

Cachorros são diferentes. Claro, se bobearem também são atropelados, mas eles se cuidam mais. Normalmente olham para os lados e esperam os carros passarem. Mesmo aqueles mais tansinhos, que se atiram de qualquer jeito rua adentro, ao perceberem qualquer outra coisa que represente um perigo desviam, ou estaqueiam, ou voltam, ou aceleram, tentando evitar o atropelamento. Quase sempre dá certo.

Gatos, não!

Naquele instante do bloqueio mental e a fuga do anjinho, o omelet... quer dizer, o gato está surdo e só enxerga o outro lado da rua, lembram? Então. Nada mais no mundo importa, ele só sabe que tem que chegar do outro lado, que ele vê como se olhasse por dentro de um tubo, nada mais no mundo existe, apenas aquela rua entre ele e os ratos e o queijo e os filhotes, aí ele se atira em direção ao paraíso, se descabelando numa correria desatinada que só termina lá do outro lado... quando não fica pelo caminho, claro! E quando esta correria começa ainda de dentro do terreno, a travessia vira uma roleta russa, e as chances de virar omelete aumentam consideravelmente.

É ou não tese de doutorado? Alguém se habilita?

E como um atropelamento só é pouco...
No aniversário da filha mais nova, numa terça-feira à noite do início de outubro, a mãe desta gatinha atropelada, uma gata nanica preta com manchas brancas, irrequieta, zanzou entre nós o tempo todo. Na quinta-feira, dei-me conta que não tinha mais visto a gata desde então. No sábado, demos a gata como desaparecida de vez. Mas, na madrugada de domingo, ao chegarmos em casa vindo de um jantar, encontramos os cachorros alvoroçados sob uma janela. No lado de fora, entre o vidro e a grade de ferro, estava a gatinha, enrolada, quieta, com os olhos arregalados. Ao trazê-la para dentro de casa, nos deparamos com um ferimento aberto, enorme, logo acima da pata traseira encolhida, e com um osso quebrado saltando para fora conforme o movimento que o bicho fazia. Nenhum gemido, apenas os olhos arregalados.

Foi medicada e permaneceu em observação na clínica veterinária até na terça-feira seguinte, para ver se reagiria aos antibióticos. O osso quebrado, o fêmur, já estava morto. Na quarta-feira, já mais forte e com a infecção sobre controle, teve sua pata traseira esquerda amputada.

O que aconteceu com ela nunca saberemos ao certo. Supomos que tenha sido atropelada na terça, na noite do aniversário, e o ferimento ter sido causado pelo choque com alguma saliência do assoalho do carro. Onde ela ficou até no domingo de madrugada não sabemos, nem o que passou para evitar os cães que infestam nossa rua. Provavelmente buscou um lugar alto, pois o cheiro do ferimento a denunciaria facilmente. Nem os nossos cães, que todos os dias saem à rua e frequentam os terrenos baldios em frente à nossa casa, a encontraram. E só imaginamos o esforço e a dor para sair do seu esconderijo e voltar à nossa casa e, mais que isso, conseguir subir até a soleira da janela passando pela grade de ferro.

Apesar da agonia de ver um bicho mutilado tentando retomar sua rotina, impressiona sua capacidade de adaptação à nova realidade. Continua irrequieta e caiu algumas vezes, mas rapidamente vai conseguindo saltar e correr, desviando de cadeiras e pés de mesa, com a mesma agilidade de sempre. A única diferença mais visível, além da pata faltando, é que parece mais quieta que o habitual. O miado, raro, é pouco mais que um sopro. Ah, sim! E com uma pata a menos ficou um pouco mais nanica que antes!
Fotos: Francis
Ilustração: Colafina

domingo, 21 de agosto de 2011

Uma Tirinha no Pedaço [vinte e dois]

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico, escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Moacyr Scliar, Entre o Humanismo e o Realismo Literário

"Acredito, sim, em inspiração, não como uma coisa que vem de fora, que 'baixa' no escritor, mas simplesmente como o resultado de uma peculiar introspecção, que permite ao escritor acessar histórias que já se encontram em embrião no seu próprio inconsciente e que costumam aparecer sob outras formas – o sonho, por exemplo. Mas só inspiração não é suficiente."

A opinião é do médico e escritor, Moacyr Jaime Scliar, que desde pequeno lia sobre medicina e dizia que em sua casa poderia até faltar comida, mas livro, jamais! Pelas ruas de Bom Fim, em Porto Alegre (RS), era conhecido como o 'menino-escritor'. Aos sete anos escreveu uma autobiografia em papel de embrulho de pão, mas ficou frustrado ao ver que a história não cabia em meia folha.

Filho de imigrantes russos, Scliar nasceu no dia 23 de março de 1937, em Porto Alegre. Foi alfabetizado pela mãe, que era professora primária, e em 1943 passou a estudar na Escola de Educação e Cultura. Em 1955 começou o curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde se formou, em 1962. Ainda na graduação, publicou Histórias de um médico em formação e, em 1968, O carnaval dos animais, que ganhou prêmio da Academia Brasileira de Letras.

Moacyr Scliar iniciou a carreira em 1963, com a residência em clínica médica. Trabalhou no Serviço de Assistência Médica Domiciliar e de Urgência (SAMDU), de Porto Alegre. Passou a atender os desassistidos da cidade e lutou contra a tuberculose, muito comum à época. Essa experiência o ensinou a lidar com a dor e a esperança. Mesmo cuidando da saúde do povo, Scliar não parou de escrever, tornando-se, em 1993, professor visitante da Brown University (no Departamento de Português e Estudos Brasileiros e na Universidade do Texas, nos EUA).

Devido ao seu caráter humanista, o escritor tinha fama de comunista sem nunca ter se filiado a nenhum partido. “Sou incapaz de fazer mal a uma mosca. Posso ser bonzinho na vida real, mas não na literatura. O escritor tem que assumir a sua crueldade e não mascarar a realidade com finais felizes”, dizia.

Autor de 74 livros entre romances, contos, ensaios, crônicas, ficção, infanto-juvenil e textos para imprensa, Scliar deixou um legado que marcou fortemente a literatura brasileira na segunda metade do século 20. O escritor ocupou a cadeira nº 31 da Academia Brasileira de Letras. Em sua carreira, ganhou vários prêmios, entre eles: Brasília (1977), Mário Quintana (1999) e Jabuti (1988, 1993, 2000 e 2009).

O médico-escritor faleceu em 27 de fevereiro de 2011, em Porto Alegre, aos 73 anos,vítima de um acidente vascular cerebral.
Fonte: Revista Funcef, ed 52, mai/jun11.



Lágrimas e testosterona
(Último texto, publicado no caderno Ciência, 7 de Janeiro de 2011)

Atenção, mulheres, está demonstrado pela ciência: chorar é golpe baixo. As lágrimas femininas liberam substâncias, descobriram os cientistas, que abaixam na hora o nível de testosterona do homem que estiver por perto, deixando o sujeito menos agressivo. Os cientistas queriam ter certeza de que isso acontece em função de alguma molécula liberada — e não, digamos, pela cara de sofrimento feminina, com sua reputação de derrubar até o mais insensível dos durões. Por isso, evitaram que os homens pudessem ver as mulheres chorando. Os cientistas molharam pequenos pedaços de papel em lágrimas de mulher e deixaram que fossem cheirados pelos homens. O contato com as lágrimas fez a concentração da testosterona deles cair quase 15%, em certo sentido deixando-os menos machões.  (Continua aqui).

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Uma Tirinha no Pedaço [vinte e um]

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico,  escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Barata Tem Alma?

Dizem que nenhum tecido orgânico sobrevive à radiação de uma bomba atômica. E há quem diga que as baratas são os únicos seres vivos que sobreviveriam a um holocausto nuclear. Assim sendo - puro exercício lógico - a barata É alma. Aquele bicho nojento, de asas brilhantes, cheio de patas e antenas esgueirando-se pelos ralos e pelos cantos, e que eventualmente acertamos uma chinelada, nada mais é que uma ilusão!

Pronto, falei.

Daqui para frente, nada mais será como nunca foi!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Espelho, Espelho Meu...

Nem sempre nos damos conta do quanto as pessoas com as quais convivemos nos conhecem, ou conhecem nossos hábitos, ou sabem do que acontece na nossa vida. Até que alguns colegas de trabalho montam um cartaz de felicitações representando algumas coisas que fazem parte da nossa vida e que, de uma forma ou de outra, nos identificam perante eles. E eu ganhei um cartaz assim.

Nele estão dois cães, a Zazu, uma cadela monocromática cor de pinhão, trazida para casa ainda filhote por nossa filha mais nova, e o Amarelo, um cão branco com grandes manchas amarelas que estacionou já adulto em frente à nossa casa por quase um mês, encostado à grade cobiçando a Zazu até que foi aberto o portão, depois a porta da casa, e que agora se esparrama no nosso sofá.

Também tem um tatu, o Dasypus Hybridus, mamífero desdentado da família dos dasipodídeos, este com apenas três anéis, também conhecido aqui na região como mulito e que, num desenho estilizado pelas mãos do meu filho mais velho, serve como logomarca deste blogue.

Estão ali também as figuras de três gatos e meio. Na verdade, três gatas e meio gato. A primeira é a Marica, uma gata quase toda preta, gorda e felpuda, que as meninas insistem em dizer que é Marie e que se pronuncia Marrrrí-í com biquinho a la francesa! As outras duas são mãe e filha, ainda sem nome pois estão destinadas à doação, apesar de já estarem aqui em casa há mais tempo do que eu gostaria. A mãe, uma gata nanica preta com manchas brancas que apareceu por aqui num dia, e no outro já havia parido dentro do guarda-roupa uma gatinha branca manchada de amarelo e preto, [ATUALIZAÇÃO] que ainda é uma criança mas já está maior que a mãe. E o meio gato é o Pepe, preto de cara a rabo que chegou aqui em casa na mesma época da Marica, mas não se acertou muito bem com a Zazu, e depois menos ainda com o Amarelo. Foi quando resolveu se rebelar e só aparecer de madrugada para comer e dormir dentro de casa, enquanto os cães dormem na garagem. Ultimamente, nem isso tem feito mais, e não atende mais nosso chamado quando o vemos na rua, lá de vez em quando. Acho que já o perdemos para a vizinhança.

Figuras que retratam meu principal passatempo também estão ali, como mãos digitando, micros 386, quiçá um 486 DX4 100, e um moderníssimo disquete de 3,5 polegadas. Fui escancaradamente chamado de antigo. Tomara que seja só porque sou mais velho que eles.

Mas, se por um lado a criatividade dos colegas criou um presente divertido e que demonstra seu bem querer, por outro uma coisa me preocupou demais. É aquela figurinha lá no canto superior direito. Tanta preocupação que já marquei consulta no oftalmologista. E no psicólogo também, só por precaução. Sério, eu não sabia que estava assim tão acabado! Juro!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Uma Tirinha no Pedaço [vinte]

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico, escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Poemículo, quatro


Entro e saio,
Num repente.
Não ensaio,
Entro e saio
Tão somente.
Foto: Image Bank
Deixa: Pax

domingo, 24 de abril de 2011

A Insanidade Não Tem Idade

Antigamente era comum viajarmos com a família completa e o carro abarrotado, quase sempre para a praia, onde desfrutávamos de alguns dias juntos. Os filhos eram pequenos, a disposição era grande, qualquer coisa era motivo de festa – para eles, claro – e o retorno exigia mais uma semana – de nós, claro – para recuperarmos a saúde física e mental. Os filhos foram crescendo, as viagens e atividades em família foram rareando e, antes que percebêssemos, estávamos enfurnados em casa criando limo. Depois de uma eternidade sem que a família estivesse reunida novamente em alguma atividade fora do habitual marasmo, eis que, de caso pensado, no dia 21 de abril fomos jejuar em um parque de aventuras radicais.

Jejuar sim, pois saímos de casa ali pelas onze da manhã, sob céu enfarruscado numa manhã em que já havia chovido, em direção ao Adventure Park, e do qual voltamos perto das sete e meia da noite depois de passar o dia a água e água, afinal até as bolachas Maria deixamos no carro estacionado na portaria.

A esposa, que teve a idéia do passeio, e eu dispensamos o rapel, a escalada e o trecking por absoluta falta de emoção, e encaramos o pacote mais radical:

– Via Ferrata, um conjunto de cabos e pinguelas balançantes suspensas entre as rochas a alturas suficientes para tremer os joelhos enferrujados, e que termina numa plataforma pendurada num pinheiro araucária feito casinha na árvore, só que a 20 metros de altura e sem cerquinha, de onde só se desce praticando rapel;

– Punk Jump, o Pêndulo – ou, a insanidade – onde criaturas sem  cérebro  noção (eu, no caso!) balançam feito ioiôs entre paredões de pedra gritando desesperadamente, pendurados num cabinho de aço preso noutro cabinho de aço atravessado entre as rochas;

– Tirolesa, que obviamente tinha que ser uma das maiores do Brasil, com 1200 metros de extensão e 150 metros de desnível, onde por mais de um minuto se despenca numa velocidade em torno de 70 km/h, dependendo da massa corporal do destrambelhado que se atirou lá de cima, da plataforma entre as rochas. Nos cálculos do carinha responsável por segurar o infeliz para que não se arrebente lá onde os cabos terminam – sim, a viagem é longa, mas os cabos não são presos no infinito, eu passei dos noventa por hora! Indignado por ter sido chamado de gordão, perguntei como ele podia saber, se não tinha velocímetro nas rodinhas nem radar móvel apontando para mim, e ele candidamente respondeu que sabia porque queimou as mãos para segurar a corda que funciona como freio. A esposa e uma das filhas, que assistiram de camarote a minha chegada, confirmaram que saiu fumaça da luva de couro que o carinha usava. Preciso de um spa, urgente!

Um outro tipo de emoção para quem escala as rochas do parque é a visão que se tem da ‘sala de espera’ do pêndulo, também de tirar o fôlego. À direita, pequenas propriedades e hotéis de turismo rural, são dois até a entrada do parque, e à esquerda os paredões de pedra que ladeiam o cânion onde alguns minutos depois estaríamos pendurados balançando e gritando palavrões!

– E, por fim, o passeio de quadriciclo que pode até não ser assim tão radical, mas que exigiu muito cuidado, alguma perícia e uns quinze minutos corcoveando pela estrada íngreme, molhada, escorregadia e cheia de pedras e valetas entre as árvores, para subir novamente todos aqueles 150 metros de desnível que tínhamos acabado de descer pela tirolesa! Como éramos  as últimas vítimas    os últimos  desmiolados    os últimos  suicidas    os últimos clientes do parque, na volta pediram que levássemos os quadriciclos ao hotel fazenda perto dali onde eles são guardados à noite, e voltamos de Land Rover até onde estavam estacionados nossos carros.

Voltaremos, na primeira oportunidade.

domingo, 17 de abril de 2011

Uma Tirinha no Pedaço [dezenove] – A Busca Continua... 6º ato

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico, escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Uma Tirinha no Pedaço [dezoito] – A Busca Continua... 5º ato

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico,  escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Uma Tirinha no Pedaço [dezessete] – A Busca Continua... 4º ato

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico, escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Dia Zero

Os gestores observam com interesse a movimentação no Hall do Futuro. Cada um deles tem à sua frente a imagem, em dimensões reais, do magnífico ambiente construído especialmente para guardar uma cápsula cilíndrica de titânio e cristal que paira, graciosamente girando à altura dos olhos dos convidados, a cerca de um metro acima do Pedestal da História, que foi ofertado há 50 anos pela Governadoria Mundial na comemoração de um Quarto de Milênio de existência da hoje tricentenária instituição presente em todos os quadrantes estelares, a Grande Xis. O Hall, uma imensa estrutura circular com paredes altíssimas, brancas e brilhantes, e que em seu centro abriga tão somente o sofisticado pedestal e seu peculiar e levitante artefato, simboliza um futuro que se oferece a que cada um escreva o seu próprio destino. Cotidianamente é visitado por pessoas que buscam um local calmo para reflexão, mas hoje está lotado por convidados, curiosos e colaboradores da Grande Xis e, no entanto, ouve-se apenas um leve rumor de ansiedade. Assim como pelos gestores ausentes, o evento está sendo acompanhado em tempo real por personalidades de todos os mundos do sistema planetário sob a justa e soberana governança do Supremo Conselho Estelar. O interesse se dá menos pela importância da instituição, nascida no longínquo século dezenove numa colônia imperial portuguesa, há décadas transformada numa entidade universal, mas muito mais pelo singular ato de abertura daquele objeto de formas anacrônicas e materiais obsoletos chamado de Cápsula do Tempo, há 150 anos guardado como um dos bens de maior valor da instituição. O dia 12 de janeiro de 2161 é uma data emblemática. Um século e meio de espera por este momento justifica todo o interesse e a curiosidade da comunidade estelar.

Presentes fisicamente apenas a Grande Gestora, uma afável e sorridente senhora de cabelos brancos e gestos suaves, e o Primeiro Urbe Gestor que comanda todas as operações realizadas no terceiro planeta. Os demais gestores os acompanham neste ato de suas respectivas bases planetárias, projetados holograficamente junto a eles circundando o pedestal. A um sinal da Grande Gestora, a energia do pedestal é desativada e a cápsula lentamente pára de girar e desce, como que suspensa por fios invisíveis, até encaixar-se em apoios luminosos sobre o pedestal. É um objeto curioso. Parece maior assim, parada, ao alcance das mãos.

Desde a divulgação pública da sua existência e do audacioso objetivo proposto pela diretoria, a cápsula foi protagonista de inúmeros episódios, que variaram do curioso e pitoresco ao aventureiro e espetacular. Nos primeiros anos a própria instituição encarregou-se de divulgar a singularidade desta iniciativa, única em seu grau de importância, dentro de suas unidades e em campanhas publicitárias. O interesse da grande mídia nunca desapareceu com o passar dos anos, e volta e meia a cápsula estrelava algum programa especial, era tema ou protagonista de filmes de aventura, ou recebia visitas importantes que profetizavam a sua sobrevivência ao tempo e às inconstâncias humanas.

E assim o tempo passou... A cada década decorrida lá estava ela, a solene e impassível Cápsula do Tempo, que emergia de seu mostruário de vidro para as telas e outdoors nas comemorações institucionais e em notas e reportagens na mídia que, invariavelmente, salientavam o tempo que ainda restava de espera para o dia de hoje, o Dia Zero.

A outro sinal da Grande Gestora, a cápsula foi cuidadosamente aberta. O conteúdo, conhecido desde sempre, os originais de contos, poesias, fotos e músicas, todas produzidas por antigos colaboradores da instituição, foi exposto ao público. Aleatoriamente, leu um dos contos e algumas poesias, enquanto as fotos eram projetadas nas altas paredes em toda volta e as músicas executadas ao fundo. E durante algum tempo, somente as imagens e o som embalaram a emoção visível em todos os semblantes. Em seguida, a Grande Gestora tomou a palavra.

– Caros amigos aqui presentes e de toda a Comunidade Estelar que nos assistem, sinto-me honrada por presidir este ato que é um momento histórico de nossa instituição. No dia 12 de janeiro de 2011, ao completarmos 150 anos de existência, a diretoria da então Caixa Econômica Federal resolveu lançar um ousado desafio às futuras gerações de colaboradores, ao dizer-lhes: nós nos encontraremos daqui a 150 anos!

Naquela oportunidade não faltaram aqueles que desdenharam deste desafio. Nunca antes houvera tamanha audácia na projeção de um objetivo com um prazo tão ambicioso. Pois agora eu digo a todos os que não acreditaram na obstinação e na força da nossa empresa – que nada mais é que a soma da força, do amor ao trabalho, da crença naquilo que fazemos e da dedicação incondicional de cada um de nós, que a nossa instituição não apenas sobreviveu ao desafio, mas cresceu e se fortificou a cada ano, a cada década, e hoje estamos aqui como testemunhas dos objetivos alcançados, e do cumprimento do desafio que nos foi proposto há tantos anos. Ajudamos a escrever a história do nosso país como agente das políticas públicas de habitação e saneamento. Em pouco tempo, tornamo-nos referência mundial, exportadores de tecnologias e soluções, e consultores de governos nos quatro cantos do mundo. Dessa forma, ajudamos a escrever também a história de tantos outros países. Expandir a atuação para outras bases planetárias foi apenas conseqüência da nossa competência em criar soluções eficazes para problemas de tamanhos planetários.

Assim é a Grande Xis. Grande, porque somos e pensamos grande. Audaz, porque somos e agimos com audácia. Forte, porque somos fortes e agimos com firmeza. Confiável, porque gostamos e acreditamos no que fazemos. Acolhedora, porque gostamos e acreditamos nas pessoas. Maior e melhor sempre, assim será a Grande Xis nos anos que virão.
Em nome da empresa, e em meu próprio nome, quero agradecer, emocionada, a todos os que fizeram e a todos os que fazem a história desta empresa desde sua fundação, há trezentos anos, até hoje. Agradeço também aos que propuseram a esta instituição desafio tão excitante e motivador. Em respeito à tão sábia iniciativa, nada poderíamos fazer de melhor do que devolver à guarda da Cápsula do Tempo o seu precioso conteúdo, acrescido apenas do registro formal desta solenidade, e devolvê-la ao Pedestal da História que é o seu justo lugar. Por fim, quero antecipadamente agradecer às futuras gerações de colaboradores, dizendo-lhes: nós nos encontraremos daqui a 300 anos!

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Texto selecionado no Concurso Gente de Talento 2009/2010, com o tema "O que você espera dos próximos 150 anos?", como parte das comemorações dos 150 anos da Caixa completados hoje. Todos os trabalhos selecionados nas categorias prosa, poesia, fotografia e música compuseram um livro e CD, e foram acondicionados numa cápsula do tempo que será aberta daqui a 150 anos, no dia 12 de janeiro de 2161.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011