terça-feira, 14 de setembro de 2010

10. O Coronel e seu Cavalo Gancho, Aquele Mal Educado!

(Esta é uma obra de pseudo-ficção. Qualquer coincidência com personagens abstratos, fatos inventados e lugares imaginados não será mera semelhança!)

O coronel Gumercindo Neto mateava pensativo, lagarteando ao sol outonal de uma manhã de domingo, sentado no banquinho de madeira presente do seu compadre com as pernas cruzadas esticadas e as costas apoiadas na parede de tábuas do galpão. Olhava o vazio enquanto o brilho morno esquentava as pedras da calçada estreita e os pés sem meia sobre os chinelos de couro. Nem percebeu a Tetê chegar trazendo outro banquinho que ajeitou nas pedras irregulares, e sentar-se ao seu lado com um suspiro sonolento.
— Quié que tá tão quieto, marido? – perguntou enquanto enchia a cuia ainda na mão do coronel.
— O Gancho entende o que eu falo... – deixou a frase no ar, quase um sussurro, o olhar ainda longe.
— Ora, é claro que entende. É um cavalo velho, está aqui desde potrilho, tem que entender...
— Mas não assim, Tetê, essas coisas de todo dia, que os bichos aprendem pelo costume. Não estou dizendo isso. Estou dizendo que o Gancho entende as palavras, as frases, as coisas que a gente fala...
— iiih... A troco do quê isso agora?
— Eu nunca me dei conta disso. Mas ontem à noite, enquanto a gente proseava ali no galpão com o primo Ptolomeu, lembra? O Gancho tava ali fora perto do galpão. Continuamos proseando depois que você foi deitar, entre um palheiro e outro, até quase meia noite. Puis, quando me dei conta o Gancho estava com o pescoço todo prá dentro do galpão, por cima do portão, e acompanhava a conversa olhando prum lado e pro outro, acompanhando quem estava falando. Volta e meia balançava a cabeça pra cima e pra baixo concordando com o assunto, às vezes pros lados, decerto dizendo que não era bem assim, sei lá. Não comentei nada com o primo pra ele não pensar que eu estava variando. Te juro, Tuinha, ele até ria com os causos mais engraçados...
— Mas que bobagem, homem, é bem capaz mesmo um bicho entender as palavras! Rir de piada, então, era só o que faltava... É melhor mesmo não falar com mais ninguém sobre isso, vão querer te internar!
Levantou-se rindo.
— Vou dar milho para as galinhas. Se mexa, senão daqui a pouco o pessoal chega e não tem nada arrumado...
Aquele domingo prometia ser movimentado.

Ali pelas nove e meia chegaram o arrumadinho de olho azul, o esquentadinho da cidade e o doutorzinho casca grossa, todos trazendo suas respectivas famílias incluindo cachorros, genros e noras. O enrugadinho transcendental apareceu trazendo a namorada nova e, de carona, o engatadinho tântrico que há tempos andava desaparecido. Segundo seu relato, que durou seis horas sem parar, andou por lugares incertos e impróprios para menores atrás de novas experiências tântricas, místicas e esotéricas, e que numa dessas andanças encontrou um chazinho maneiro com cor de água suja que é ótimo para limpar o trato digestivo, desde a entrada até a saída. O único problema, disse ele, é que depois você não lembra muito bem como é que as coisas aconteceram. Fora isso, tudo bem.

O bostinha colafina chegou mais tarde pra parecer mais importante que os outros só porque tem a chave do portão. O sabidinho que fala javanês, vindo da Groelândia, não apareceu porque teve que ir atrás da bagagem dele que foi despachada pro Zimbábue, na conexão em Cochabamba. Um dia, quem sabe, ele consegue chegar à estância.

Depois do churrasco assado pelo Vassourinha embebido em água de privada – o Vassourinha, não o churrasco – e muita cerveja no ponto, o povo todo esparramou-se no gramado pra aproveitar o sol uns, e curar a ressaca outros. Bem perto, o Gancho pastava absorto a grama curta. A conversa corria solta e sem compromisso até que um daqueles genros arriscou:
— Seu coronel, podemos dar umas voltas a cavalo?
— Mas é claro. Vassourinha, encilha o Gancho pro vivente aqui...
O cavalo trocou orelhas pressentindo a roubada que se avizinhava.
— Me leva na garupa, amor? – suplicou dengosa a filha correspondente ao genro aquele.
O Gancho arregalou os olhos e parou de mastigar, mas com os beiços ainda roçando o capim ralo. O coronel percebeu a reação e fez um sinal com a cabeça para a Tetê, e ficaram os dois olhando atentos o animal.
— Também quero andar nele! – guinchou um guri gordinho.
Levantou a cabeça e uma das patas dianteiras deslizou devagar para trás. Nem respirava.
— Depois sou eu! – determinou um dos esparramados.
O bicho deu um passo atrás já olhando pro lado.
— Tô na vez! – alertou outro, coçando o barrigão.
A passo lento, meio disfarçado e olhando de revesgueio, o cavalo velho começou a se afastar, e o jeitão dele chamou a atenção dos amigos do Arrudão, que também ficaram cuidando do Gancho até chegar em frente ao portão.
— Prondié que ele tá indo, tio? – guinchou de novo o gurizote.
— Prá lugar nenhum, piá, não tá vendo que o portão está fechado?

Então, todos os olhos se voltaram para o cavalo parado em frente ao portão que estava fechado. Ele olhou devagar para trás como se pedisse “– Me deixem sair daqui!“. Como ninguém se mexeu, voltou novamente a cabeça, e sob a clara luz do sol daquele dia de céu limpo todos testemunharam boquiabertos o Gancho enfiar o focinho entre as duas tábuas mais de cima, abocanhar a travessa com os dentes, levantá-la até desencaixar da trava no palanque, deslizá-la para o lado liberando o portão, depois soltá-la e, com todo cuidado, tirar o focinho dentre as tábuas e dar uma olhada rápida para trás, como se desdenhasse “– Tudo bem, eu mesmo abro!“. Ainda de queixos caídos, viram o Gancho empurrar de leve o portão com a testa, passar para o lado de fora e começar a subir a passo em direção ao capão da Santinha. Lá em cima do morrote o Gancho parou, virou-se para o bando de pasmados, relinchou debochado, deu meia volta, empinou o rabo e o topete e saiu a galopito, rindo descaradamente da fila de trouxas que esperavam um cavalo para passear, como se dissesse “– Eu, hein? No meu lombo não, violão!”.

Há quem diga que nem o coronel acreditou no que o Gancho tinha acabado de fazer, mas a Tetê desconversa e não confirma! A verdade é que o coronel nunca tinha visto mesmo o Gancho fazer aquilo. Mas... ele era o coronel Arrudão!  Conversador incansável desde nascença e exímio contador de causos acontecidos e outros nem tanto, é claro que não ia deixar escapar uma chance dessas de reforçar a fama que o precedia em toda a região da Coxilha Rica e dos Campos da Vacaria. Aprumou o queixo caído e, se fazendo de nervoso, deu alguns passos na direção do cavalo que chispava faceiro campo afora, estaqueou e virou-se com as mãos na cintura apontando o narigão adunco para a Tetê:

— Tetê, precisamos ter uma conversa séria com o Gancho, aquele mal educado! Não é que ele deixou o portão aberto... de novo?