quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Banzai, filho do Tigre

Nossos filhos, ainda pequenos, encontraram debaixo de uma pilha de tábuas o filhote de gato que miava em desespero desde o dia anterior. Era o mais legítimo representante dos vira-latas felinos. Cinza encardido e listrado, parecendo um filhote de tigre. Mais comum impossível. E o batizaram de... Tigre!

De uma feita, logo que se tornou adulto, fugiu da clínica veterinária para onde foi levado para se tratar de uma pereba qualquer. Onze dias depois, com as crianças já resignadas com a sua falta, reapareceu na porta da nossa casa miando gemido, magro, estropiado e descabelado. Recuperado e paparicado, tornou-se um gato enorme, chegando a pesar quase cinco quilos, e com a Lelé, uma gata pequena, cinza encardido e listrada, tiveram três filhotes, todos cinzas encardidos e listrados. Receberam o nome das hienas do Rei Leão, Ed, Banzai e Shenzi. Não lembramos mais como o Tigre saiu de nossas vidas, mas a Shenzi, tal como o pai, fugiu da mesma clínica, só que nunca mais voltou. Ed simplesmente sumiu de casa, provavelmente correndo atrás de algum rabo peludo, e também nunca mais voltou. O Banzai nunca fugiu, nem mesmo da clínica, paciente assíduo que era.

Nosso relacionamento era amistoso, mas arredio. Tínhamos um trato, eu não o incomodava muito, e ele me ignorava. Da dona da casa e das crianças aceitava bem os cafunés e ficava por perto, quando queria. Em alguns momentos, chegava a ser carinhoso e ronronava até cochilar encostado em alguma delas, noutros deixava numa bochecha ou pescoço a marca das unhas quando exageravam nos carinhos. Banzai nunca foi o único gato do pedaço, mas era o mais fiel, e ao mesmo tempo o mais independente de todos os gatos nos quais eu tropeçava pela casa toda.

Teve vários filhos, e sobreviveu a dois atropelamentos. Um de fato, pelas rodas do nosso carro na rampa da garagem, e que lhe custou a fíbula direita, e outro por suposição, depois de passar várias dias andando de lado, gemendo e mancando. Levou uma vida devassa, de arruaças constantes e brigas homéricas de acordar a vizinhança, e que no dia seguinte obrigavam a dona da casa levá-lo ao veterinário para ser medicado e costurado. Tantas lanhadas e mordidas renderam-lhe um incômodo emaranhado de cicatrizes sob o pelo. Com o tempo ele aos poucos foi sossegando, e ao chegar à terceira idade a maturidade falava mais alto que o ímpeto de macho dominante, e passou a preferir o conforto do sofá ao entrevero noturno nos quintais alheios. No inverno, dormia na porta aberta do forno do fogão enquanto estivesse ligado. Depois, tomava o rumo da nossa cama onde dormia até amanhecer.

Acabamos esquecendo o antigo trato e, de arredio, nosso relacionamento passou a ser afetuoso. Dormia ao meu lado no sofá, aceitava com satisfação um agrado, e até me recebia ao fim do dia se enroscando nas minhas pernas, desde, é claro, que eu não estivesse usando boina preta ou óculos escuros, quando então fazia um risco e sumia do meu alcance. E, por muito tempo, brindou-nos com um escândalo matinal que só terminava quando lhe era servido uma tigela com leite morno, que sorvia avidamente. Até ontem.

Há alguns meses o mau funcionamento dos rins o obrigava a visitas periódicas à clinica para tratamento. Sua aparência estava horrível, pois o pelo ouriçado e desgrenhado não disfarçava a magreza extrema, e sua saúde se debilitava a cada dia. Hoje pela manhã não teve o escândalo habitual pelo leite morno, nem mesmo um gemido. Estava prostrado, e despedi-me dele com um agrado que aceitou esticando o pescoço e fechando os olhos. No fim da tarde, sem que nada mais pudéssemos fazer por ele, o Banzai foi sacrificado, depois de treze anos completados no início deste mês dividindo conosco nossa casa e nossas vidas.

Foto & Edição: Francis

6 comentários:

  1. Banzai (homenagem póstuma)

    Justa homenagem a quem deu tantas alegrias e controvérsias

    Sr. idoso, o Banzai cheio de baldas e manias, não diferente dos que tenho ou tive. Além das travessuras e manhas, gatinhos precisam ter cheiro característico deles e algumas pulguinhas para serem catadas pela dona (gato sem pulga não tem graça)

    Um abraço

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  2. Leco, compartilho com vocês essa homenagem. Esses bichinhos cativam a gente, tomam conta do espaço da nossa casa e do nosso coração. E, quando partem, deixam um vazio cheio de boas lembranças.
    Beijo para a família
    Silvia (smolleri)

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  3. É mesmo? Então está explicado por que a nossa família é tão engraçada, afinal pulga é coisa que nunca faltou por aqui, muito pelo contrário!! ahahah

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  4. Pois é, dona Sílvia!
    Mexem legal com a gente, e o pior é que alguns deles fazem falta mesmo...
    Beijos prá família também!

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  5. Que linda homenagem Cola! Nunca fui afeita a animais, mas recentemente temos uns cachorros lá no sítio que fazem eu me aproximar, mesmo que só um pouquinho, do que seja essa afeição. Essa semana a cadela desapareceu e, no mesmo dia, o cachorro voltou prá casa com vestígios de que foi espancado por gente grande, dessas bem desumanas mesmo. Aqui da minha lonjura fiquei bem triste, pela desaparecimento da nossa Diana, e revoltada pela violência que a pobrezinha e o Negão possivelmente sofreram.
    Fico procurando por palavras de conforto a vocês, pela ausência do Banzai, mas não sei o quê dizer. Apenas me solidarizo.

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  6. Obrigado pelo seu carinho, Quequel, ele já é um conforto.
    Bichos nunca faltaram aqui em casa, muito pelo contrário, e o excesso sempre foi a norma! Mas treze anos de convivência é muito tempo, nem que não queira acabam afeiçoando e depois fazem falta...

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