terça-feira, 31 de agosto de 2010

Uma Tirinha no Pedaço [treze]

FAGUNDES & ANACLETO
Clênio Souza, artista plástico, escultor, cartunista, poeta e desenhista, originalmente publicado em O Momento.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Banzai, filho do Tigre

Nossos filhos, ainda pequenos, encontraram debaixo de uma pilha de tábuas o filhote de gato que miava em desespero desde o dia anterior. Era o mais legítimo representante dos vira-latas felinos. Cinza encardido e listrado, parecendo um filhote de tigre. Mais comum impossível. E o batizaram de... Tigre!

De uma feita, logo que se tornou adulto, fugiu da clínica veterinária para onde foi levado para se tratar de uma pereba qualquer. Onze dias depois, com as crianças já resignadas com a sua falta, reapareceu na porta da nossa casa miando gemido, magro, estropiado e descabelado. Recuperado e paparicado, tornou-se um gato enorme, chegando a pesar quase cinco quilos, e com a Lelé, uma gata pequena, cinza encardido e listrada, tiveram três filhotes, todos cinzas encardidos e listrados. Receberam o nome das hienas do Rei Leão, Ed, Banzai e Shenzi. Não lembramos mais como o Tigre saiu de nossas vidas, mas a Shenzi, tal como o pai, fugiu da mesma clínica, só que nunca mais voltou. Ed simplesmente sumiu de casa, provavelmente correndo atrás de algum rabo peludo, e também nunca mais voltou. O Banzai nunca fugiu, nem mesmo da clínica, paciente assíduo que era.

Nosso relacionamento era amistoso, mas arredio. Tínhamos um trato, eu não o incomodava muito, e ele me ignorava. Da dona da casa e das crianças aceitava bem os cafunés e ficava por perto, quando queria. Em alguns momentos, chegava a ser carinhoso e ronronava até cochilar encostado em alguma delas, noutros deixava numa bochecha ou pescoço a marca das unhas quando exageravam nos carinhos. Banzai nunca foi o único gato do pedaço, mas era o mais fiel, e ao mesmo tempo o mais independente de todos os gatos nos quais eu tropeçava pela casa toda.

Teve vários filhos, e sobreviveu a dois atropelamentos. Um de fato, pelas rodas do nosso carro na rampa da garagem, e que lhe custou a fíbula direita, e outro por suposição, depois de passar várias dias andando de lado, gemendo e mancando. Levou uma vida devassa, de arruaças constantes e brigas homéricas de acordar a vizinhança, e que no dia seguinte obrigavam a dona da casa levá-lo ao veterinário para ser medicado e costurado. Tantas lanhadas e mordidas renderam-lhe um incômodo emaranhado de cicatrizes sob o pelo. Com o tempo ele aos poucos foi sossegando, e ao chegar à terceira idade a maturidade falava mais alto que o ímpeto de macho dominante, e passou a preferir o conforto do sofá ao entrevero noturno nos quintais alheios. No inverno, dormia na porta aberta do forno do fogão enquanto estivesse ligado. Depois, tomava o rumo da nossa cama onde dormia até amanhecer.

Acabamos esquecendo o antigo trato e, de arredio, nosso relacionamento passou a ser afetuoso. Dormia ao meu lado no sofá, aceitava com satisfação um agrado, e até me recebia ao fim do dia se enroscando nas minhas pernas, desde, é claro, que eu não estivesse usando boina preta ou óculos escuros, quando então fazia um risco e sumia do meu alcance. E, por muito tempo, brindou-nos com um escândalo matinal que só terminava quando lhe era servido uma tigela com leite morno, que sorvia avidamente. Até ontem.

Há alguns meses o mau funcionamento dos rins o obrigava a visitas periódicas à clinica para tratamento. Sua aparência estava horrível, pois o pelo ouriçado e desgrenhado não disfarçava a magreza extrema, e sua saúde se debilitava a cada dia. Hoje pela manhã não teve o escândalo habitual pelo leite morno, nem mesmo um gemido. Estava prostrado, e despedi-me dele com um agrado que aceitou esticando o pescoço e fechando os olhos. No fim da tarde, sem que nada mais pudéssemos fazer por ele, o Banzai foi sacrificado, depois de treze anos completados no início deste mês dividindo conosco nossa casa e nossas vidas.

Foto & Edição: Francis

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Intercâmbio Culinário

No mês de junho recebi o convite de uma amiga, por email, para participar de um intercâmbio de receitas culinárias. Como decididamente não sou conhecido pelos meus dotes culinários, fica claro que só recebi o convite porque ela precisava enviar para 20 pessoas para não quebrar a corrente. O curioso é que, apesar da minha mediocridade panelística, por algum motivo que desconheço sou constantemente solicitado por amigos cozinheiros, e até pela minha mãe e minha sogra, a experimentar o tempero dos pratos principais que estejam fazendo. Infelizmente, minha fama nas redondezas não passa disso, um mero provador de tempero.

Apesar disso, se precisar cozinhar não morro de fome. Meu conhecimento de cozinha, porém, resume-se a pratos simples, rústicos, que não exigem receitas escritas e que aprendi fazendo ou perguntando como fazer, e apenas em ocasiões específicas, invariavelmente envolvendo os amigos. Além dos pratos básicos como misto quente, sopa de caneca e ovo frito, consigo preparar sem muita dificuldade uma macarronada, arroz com galinha, arroz com lingüiça, paçoca de pinhão, carreteiro, bife no disco com legumes e verduras, peixe frito, churrasco... ou seja, todos pratos bem aceitos pela maioria das pessoas, e nada muito elaborado.

Mas aquele convite mexeu com os meus brios. A busca por uma receita especial para a minha amiga me fez pensar na relação que tenho com as panelas, e como este relacionamento interfere na rotina das formigas cortadeiras que fazem ninho nas trincas da calçada, daí percebi que não posso passar o resto da vida como provador oficial do tempero do prato dos outros – atividade de alto risco, por sinal. Resolvi, então, investir na minha imagem gourmética, e saí à procura da receita ideal. Optei por um prato típico das regiões de altitude aqui do sul, bem tradicional, preparado desde a era sapozóica, mas os poucos relatos que encontrei não estavam à altura da importância dos meus objetivos ego-culinários. Por isso, passei os últimos 47 dias redigindo com muito esmero esta receita, que acredito será do agrado dela, pois, como se pode perceber, é um prato muito simples, de poucos ingredientes e de facílimo preparo.


Crestamento de Estruturas Embrionárias Araucariáceas

Ingredientes
- Área desartificiosa não dimensionada, com ou sem extrato arbóreo significante;
- Espécime feminino fanerógamo gimnospérmico araucariáceo, com ocorrência de infrutescências em favorável estágio de maturação;
- Rejeitos de extremidades arbóreas com órgãos laminares pungentes em adiantado estado de desidratação;
- Estruturas embrionárias araucariáceas em sobejidão;
- Espessos protetores digitais, optativos;
- Receptáculo de faces retangulares provido de hastes com extremidades inflamantes;

Preparo
- Valendo-se da fímbria dos membros superiores com ou sem o auxílio de protetores digitais, colija os rejeitos de extremidades arbóreas com órgãos laminares pungentes em adiantado estado de desidratação, dispersamente prostrados sobre as ciperáceas por ação direta de forças eólicas, e lance-os de mão em minguada área erigindo murundu de eminência não fixada, embora bastante para o inteiro crestamento do universo das estruturas embrionárias que se intenta amealhar. Por mero e exacerbado zelo e com singular escopo impediente de um abrasamento tal que prive a sua exeqüibilidade de consumo, reporte-se que o conjunto de conhecimentos específicos focados no ato objeto deste relato, a se constituir de vantajosa aquisição acumulada pelo exercício histórico desta prática, orienta que seu cume situe-se apropinquadamente a três quartos de milhar de milímetros do nível das ciperáceas.

- Superpostamente ao murundu, precipite aspersadamente as estruturas embrionárias araucariáceas previamente esbagoadas das infrutescências favoravelmente maturadas ou coligidas por entre as ciperáceas circundantes;

- Excite a reação ígnea dos rejeitos monticulares consequentemente à ignescência de uma ou mais hastes com extremidades inflamantes, em disposição geodesicamente propícia aos movimentos eólicos de rajadas, similarmente aos de repiquetes, precavendo-se de inapropriada assimilação bronco alveolar das emanações carbônico-gasosas oriundas da massa incendida;

- Ato contínuo ao completório da atividade ignescente, com o prudente auxílio de ramúsculo de dimensão longitudinal apropriada tal que permita esgaravatar acauteladamente a borralha plúmbea queimosa e as substâncias combustíveis sólidas incandescentes resultantes da combustão incompleta dos materiais orgânicos envolvidos, colija as estruturas embrionárias araucariáceas crestadas e aboque-as, precedendo diligente subtração do cascabulho e breve entibiamento.

Sugestão
- Aprestamento e consumpção em ambiência amical recrudescem o saibo intrínseco.

Saborida apetência!