sábado, 18 de outubro de 2008

8. O Coronel e o Sumiço do Vassourinha

(Esta é uma obra de pseudo-ficção. Qualquer coincidência com personagens abstratos, fatos inventados e lugares imaginados não será mera semelhança!)

O coronel Gumercindo Neto virou à esquerda logo depois da ponte e parou a camionete em frente ao portão de arame farpado que fecha a estrada que leva à estância. A noite estava quente e escura, nublada, sem lua. Ficou ruminando as idéias, olhos perdidos lá adiante onde a luz dos faróis iluminava o capim alto e o seu cão correndo, as orelhas compridas subindo e descendo parecendo as asas de um pato tentando levantar vôo, e sumindo na curva do caminho estreito. Era sempre assim. O Traíra fazia todo o percurso da ponte até a estância correndo e latindo, e fuçando em todos os buracos e macegas, e mergulhando nas sangas e poças d’água. Chegava primeiro e recebia o coronel latindo e rosnando como a um estranho. – Cachorro esquisito... – pensou. Estranhou a demora do Vassourinha para abrir o portão, o terceiro até ali. Até a estância, mais três. Pôs a cabeça para fora:
— Vassourinha! Tá dormindo, diabo?
Olhou a carroceria pelo vidro traseiro da cabina, mas estava muito escuro e não viu ninguém. Chamou de novo pela janela, e nada.
— Vou te acordar no tabefe, seu traste! – falou alto, enquanto desembarcava e procurava pelo Vassourinha no assoalho da caçamba, mas só achou um garrafão com um pingo de água de privada e os sacos de sal e de ração que trazia para o gado.
— Mas cadê ele? – resmungou, olhando em volta.
— Vassourinha! Ô, Vassourinha! – começou a chamar enquanto procurava em volta da camionete, na estrada, e nos matos da beira da estrada.
— Deve estar mijando... E se caiu no rio, aquela anta?
Foi até a ponte, e cuidou prá ver se escutava algum barulho diferente na água. Nada. Começou a ficar preocupado. Voltou à camionete e manobrou devagar na estrada até dar uma volta completa, procurando o peão com cuidado até onde a luz alcançava. Embicou novamente em frente ao portão, baixou os faróis, e tentou se concentrar no que fazer. O Vassourinha simplesmente havia sumido! Ele agora estava, realmente, muito preocupado.
Não era sem razão. Vassourinha era viciado em água de privada já de longa data. No terceiro copo desembestava a pregar a palavra de Deus empoleirado num cupinzeiro – que insistia em dizer que era dele – dirigindo-se a uma multidão de pecadores que só existia em seu delírio! De acordo com uma bruxa velha, benzedeira, a quem o coronel recorre de vez em quando, “... puis, se a cachaça empedra os figo e endurece os joeio, água de privada cozinha os miolo e desinvereda as idéia! ”.
Há uns três anos Vassourinha passou uma semana internado no hospital, abaixo de sedativos, por problemas causados pelo seu vício. Naquele período, o coronel e alguns dos seus amigos se revezaram cuidando do seu peão durante as seis noites do internamento para poupar os seus pais, que o atendiam durante o dia. Todo o tempo, alheio ao mundo real, Vassourinha viveu uma vida só sua, rica em detalhes, com muita imaginação e aventuras. Teve de tudo. Desde dormir sentado, com um olho fechado e o outro arregalado, o que deixou o doutorzinho casca grossa de cabelo em pé, e pedir pro arrumadinho de olho azul sair da frente para ele poder espremer os bernes da Quilemeio, sua vaca de estimação, até achar que seu pé direito debaixo do cobertor era o celular que havia perdido, encostá-lo na orelha e ligar para o advogado para falar da sua questã na junta. Divertiu-se com o alvoroço do bando de macacos pendurados nas árvores que cresciam dentro do quarto, e rasqueteou o rosilho montado pelo bostinha cola fina, que foi visitá-lo entrando a galope pela parede à direita da cama. Sob os cuidados do enrugadinho transcendental, abriu valetas nos corredores e cercou o paciente da cama ao lado da sua com palanques de eucalipto besuntados com óleo queimado ‘... prá proteger da umidade, do jeito que o coronel gosta’.
Mas o que ele mais fez foi discutir com alienígenas, funcionários públicos do planeta Seh Plan, o oitavo do sistema Preh Feyt Hurah, na constelação Lah Gehns. O peão argumentava aos burocratas, categórico, que não embarcaria na nave estacionada flutuando ao lado da janela do quarto, porque a papelada estava somente em quatro vias, deviam ser cinco, e faltava o carimbo do chefe, ‘... sem carimbo não embarco’. Enquanto isso, na beira da porta da nave, um alienígena com olhos puxadinhos e cara de dono de lavanderia enchia copos enormes com água de privada fresquinha e oferecia ao Vassourinha, que salivava e choramingava ‘... mas eu não posso, entendam, tá faltando o carimbo...’. Esta discussão era tão freqüente e com tantos detalhes, que o coronel acabou ficando em dúvida se era só delírio mesmo. Depois que saiu do hospital, o Vassourinha melhorou bastante fisicamente, mas a cabeça deu uma baqueada. Volta e meia, durante a pregação divina lá no cupinzeiro, os alienígenas reaparecem e o peão titubeia, gagueja, e já não discute com tanta firmeza como dantes. Algumas vezes até diz: ‘Então quero ver seu chefe!’.
Um arrepio sacudiu o coronel, que começou a tremer incontrolavelmente e, todo atabalhoado, saiu da camionete testavilhando em círculos, ligando várias vezes para a estância até achar um lugar onde o celular desse sinal:
— Tetê de Deus! – gritou, quase aos prantos – O Vassourinha foi abduzido!

— Ora, homem, você não acredita realmente nessa bobagem, não é?
Tetê está em pé, na cozinha, e à sua frente, sentado à mesa e afundado nos cotovelos, está o coronel, que mal consegue segurar uma xícara com chá de camomila que ela preparou prá acalmar o homem.
— Era só o que faltava, essa história de disco voador e ET carregando o Vassourinha! E justo o Vassourinha, com tanta gente importante dando sopa por aí? Vai ver, ele pulou da camionete no meio do caminho e você nem viu!
— Mas de que jeito, mulher, se ele abriu o portão que tem antes da ponte? E eu vi ele voltar para a carroceria, eu juro que vi...
E não adiantou Tetê argumentar. Depois de umas horas desistiu e foi se deitar. O coronel naquela noite não dormiu, e até quase amanhecer andou dum lado pro outro na casa feito alma penada, arrastando as suas correntes, lamentando os seus erros e se arrependendo das suas culpas. Ah!, se pudesse voltar atrás e tratar melhor o seu peão, talvez ele não tivesse ido embora com aqueles ET’s... Tetê também não dormiu. Nunca tinha visto seu marido daquele jeito, aquele ataque de remorsos, o vai-e-vem pela casa, os resmungos, as lamúrias, os suspiros e os choramingos do coronel deixaram-na preocupada. Não com a saúde do coronel, claro que não, pois ele era socadinho mas tinha saúde, era outra coisa que a incomodava. Todo aquele desatino só por causa do Vassourinha não era normal, devia haver alguma coisa mais que ela deveria saber, e ainda não sabia. A história estava muito mal contada, e naquele momento uma pulga aninhou-se em seus cabelos, atrás da orelha, trazendo consigo uma maçaroca de minhocas que se espalharam pela sua cabeça, acabando com seu sossego.
Já era dia quando o latido do Traíra e um relincho pros lados da porteira interromperam os seus pesadelos. Os dois haviam apenas cochilado depois de uma madrugada inquieta, já quase amanhecendo o dia, a Tetê embolada nas cobertas reviradas e o coronel sentado ao lado do fogão, babando emborcado na chapa fria. Pôs-se de pé num sobressalto, sem saber direito onde estava, e num pulo alcançou a varanda. Parecia que não dormia há semanas. De longe, o cavaleiro acenou e o cumprimentou:
— ‘Dia, coronel.
O peão do seu primo trazia na garupa uma figura que o coronel reconheceu na hora.
— Vassourinha! Vassourinha, você voltou! – gritou e desembestou desatinado em direção aos homens montados na égua Cheirosa, que subia a passo o caminho que levava à casa. Ainda correndo, metralhou:
— Como foi que conseguiu escapar? Eles te machucaram? O que foi que eles te fizeram, homem? Como eles são? O que eles queriam? Tiraram alguma coisa de você? Um rim, um pedaço do teu fígado empedrado para estudo, uma mecha dos cabelos? Cadê a nave? De onde eles vieram? Fala, homem, não agüento a curiosidade, como foi que tudo aconteceu?
O cavaleiro segurou a Cheirosa e gaguejou, assustado com a correria do coronel:
— Ih!, seu coronel, não tô entendendo o que o senhor tá falando... encontrei o Vassourinha dormindo no fundo daquele valão perto da ponte, a par do portão de arame farpado. Tô indo em direção da ponte quando ouvi um ronco, até a égua assustou, achei que era leão baio... E olha, seu coronel, tava assim de urubu no pinheiro que tem ali do lado. Deu trabalho tirar ele lá de dentro, tive que puxar com a Cheirosa! Ele me disse que caiu no valo ontem à noite, quando desceu da camionete prá abrir o portão, seu coronel. Pelo jeito nem deu tempo de gemer, já caiu dormindo...
O manotaço do coronel no bico da bota quase arrancou a perna do Vassourinha, que dormia encostado no peão, e assustou o animal.
— Seu estrupício! – trovejou o coronel – Eu aqui na maior aflição desde ontem, não preguei o olho a noite toda, de preocupado, e você vem me dizer que passou a noite roncando no valo? Seu traste! – outro manotaço quase derrubou o Vassourinha do lombo da égua – E a história dos alienígenas, o que é que você me diz? Hein? Hein? A nave na janela, a papelada sem carimbo? Vai, seu bosta, desembucha! Seu incompetente, nem prá ser abduzido serve! Vamos, homem, desembucha!
O Vassourinha, do alto da montaria, olhos vermelhos piscando em câmera lenta, resmungou:
— Mas, coronel, do que é que o senhor tá faland... uuuggooóóóÓÓÓ!!! – e despejou numa golfada, do narigão adunco às botas do Arrudão, o garrafão inteirinho de água de privada que havia bebido na noite anterior na carroceria da camionete, empestando o coronel com o mais grudento, pestilento e tenebroso fedor de latrina jamais sentido naquelas bandas do Cajuru!
Bem feito! Não mandou desembuchar? Pois, então!
Quanto ao valo, até hoje é conhecido por todos na região como “o valo do Vassourinha”, batizado numa solenidade de descerramento de placa organizada pelos amigos do Arrudão, com direito a gaiteiro, lambisco e tudo mais, devidamente registrada em fotografia.
Apesar da insistência, o coronel não compareceu ao evento!

6 comentários:

  1. Tem mutreta neste valo!!!Sera que o nome de vassourinha saiu dos bigode do capataz???

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  2. É o próprio, seu Tiúspe, é o próprio...

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  3. Buenas, primeira visita aqui e ganhei já um belo texto.

    Parece história dos pampas. É?

    Parabéns!

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  4. Pax,
    Não, mas quase. A região do Cajuru onde a Saga acontece fica na entrada da Coxilha Rica, campos de Lages, na serra catarinense, pertinho do pampa gaúcho. Na verdade, é igualzinho, lá e cá...
    Obrigado pela visita, volte sempre!

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  5. estou esperando os textos de 2009
    bjos

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