segunda-feira, 28 de abril de 2008

7. O Coronel e o Picolé de Dentadura

(Esta é uma obra de pseudo-ficção. Qualquer coincidência com personagens abstratos, fatos inventados e lugares imaginados não será mera semelhança!)

O coronel Gumercindo Neto acordou tarde naquele domingo de inverno. Como era o dia da folga anual do Vassourinha, não foi acordado pelo burburinho da lida que todos os dias começava cedo, com o trato dos animais e o mugir dos bezerros durante a ordenha das vacas no galpão, com o alvoroço das galinhas acordando e disputando o milho jogado no terreiro, e com os latidos do Traíra que desviava dos coices do rosilho, que bufava pedindo a ração e implorando “...alguém prenda este sarna!”— Tetê de Deus! Acorda, mulher! Estamos atrasados! Vamos, Tuinha, acorda, abra os olhos! Temos que correr, não podemos ser os últimos a chegar...
O coronel se referia à festa de posse da nova diretoria da Associação dos Criadores de Animais de Corte e Leite de Grande e Médio Porte e Produtores Agrícolas e de Derivados Animais da Macro Região do Cajuru e da Grande Bacia do Rio Guará e Seus Afluentes, ou simplesmente a ACACLGMPPADAMRCGBRGSA, que previa, após o churrasco oferecido pelo novo presidente, um inédito concurso de mentiras! Segundo o idealizador do concurso, o diretor do departamento cultural da ACACLGMPPADAMRCGBRGSA, “— Vale qualquer mentira, grande ou pequena, pode ser estória de pescador, de fazendeiro, de administrador, até de diretor teatral, não importa, o objetivo é tornar público e premiar as estórias fantasiosas que, via de regra, são contadas apenas no aconchego dos galpões!”Puis, não por acaso, o coronel era candidato ao primeiro prêmio! Não que ele fosse mentiroso, ca-paz, claro que não! Mas era um contador de causo de mão cheia... quer dizer, de boca cheia! Ele conseguia juntar a sua característica habilidade de jundiá ensaboado com a tagarelice de um papagaio hiperativo disfarçado de alto-falante! E na opinião dele, sua estória era muito boa. Era um causo antigo, que de tanto ele contar já pensava até que fosse verdade. Confiante na vitória, passou as últimas semanas retocando os detalhes e decorando, na frente do espelho, até os gestos que faria na apresentação.
Foram os últimos a chegar, e quase perderam o churrasco. Como o coronel era muito conhecido em toda a região, sua fama o precedia, e a sua estória era de longe a mais esperada. Não pode enturmar-se nem beber com os mais faladores, por isso não houve quem não notasse a cara emburrada do coronel por ter chegado atrasado. Foi o último a se apresentar, pois os organizadores queriam que sua mentira servisse como apoteose do evento, um gran finale! Pigarreou, e após um breve momento de suspense, no qual ninguém sequer respirava, começou seu relato:
— Este fato sucedeu-se há muitos anos, mas é como se tivesse acontecido ontem. Tudo está muito vivo em minha memória. Sei que não será necessário provar o que contarei a seguir, mas antes que algum dos senhores sequer pense em duvidar de minhas palavras, digo que não estava sozinho na ocasião, e para garantir a veracidade, trouxe comigo e está presente entre nós o Sr. arrumadinho de olho azul que, juntamente com seus filhos pequenos e com um sobrinho meu, foi co-protagonista do episódio. É pessoa da maior integridade, e estará à disposição dos senhores para confirmar, tintin por tintin tudo o que se sucedeu. Seu arrumadinho, por favor, levante-se para que todos o vejam!
Sim, senhor, era o arrumadinho! De novo, envolvido em outra aventura do coronel! Foi ovacionado pela multidão, e sentou-se rapidamente, constrangido. O coronel continuou:
Era uma noite quente de um sábado, no verão de 93, e estávamos cansados pelo trabalho pesado de reconstruir o galpão da minha estância durante o dia todo, sem descanso. Ali pelas nove fui deitar, meu sobrinho e os dois filhos do arrumadinho já dormiam noutro quarto, e o arrumadinho resolveu dormir numa rede, pendurada no galpão inacabado entre as pilhas de tábuas. Passava um pouco das duas quando acordei de sobressalto com o estouro de um tiro! Pulei da cama num pé, e no outro já estava no galpão, com o lampião numa mão e a minha 22 de repetição na outra, engatilhada e destravada! A rede estava vazia e balançando, e já imaginei o pior. Procurei pelo galpão e encontrei o arrumadinho agachado atrás de uma pilha de caibros de eucalipto, apontando o dedo e gaguejando:
— Veio dali o tiro, Arrudão, veio dali o tiro...
— Te acalma, homem! Dou uns tiros de espingarda, só pra assustar, e quem atirou vai-se embora.
E foi o que fiz. Saí uns dois passos do galpão, mirei pro alto, pois afinal sou homem cuidadoso e não vou querer ferir ninguém, não é mesmo? Dei três tiros, apurei o ouvido e nada.
— Viu só? Eu não disse? Nessa hora a gente tem que manter a calma, ser sensato, usar a cabeça... nada de desespero!
Dei um passo de volta em direção ao galpão, e um barulho ensurdecedor, daqueles de fazer pular as telhas das ripas, ribombou nas nossas orelhas! Pois eram armas atirando contra nós! Muitas armas, muitas armas, olha, pelas minhas contas no mínimo umas duzentas e cinqüenta! Era tiro e bala pra todo lado, passavam assobiando e explodiam nas tábuas do galpão e... as tábuas!... as tábuas do galpão!!
— Ah! não, ah! não, as tábuas, não!! Um homem pode suportar muita coisa, mas furar de bala as tábuas quase novas, recém pregadas e ainda nem pintadas, aí já é demais!
De pronto me agachei, virei pro lado que vinham as balas e esvaziei o carregador. Saíram as dez balas, pá, pá, pá, e corri pro galpão já chamando o arrumadinho:
— Pega os guris e leva pro Fusca, vou pegar a caixa de balas e te encontro lá...
— Mas Arrudão, as crianças? No Fusca? É mais seguro ficar dentro de casa, onde elas estão!
— Não discuta, preciso de vocês prá encher os carregadores enquanto encho de chumbo essa ladroagem...
— Ladroagem? E desde quando ladrões atiram deste jeito?
— Só pode ser! Vai ver eles querem me tomar a estância, faz tempo que tenho pesadelos com isso... mas eles não sabem com quem se meteram!


Nestas alturas, a platéia já estava inquieta. O dia estava muito frio, a estória estava muito comprida, o coronel dava muitos detalhes, e ainda por cima representava o que estava contando. No seu entusiasmo, não percebeu a impaciência dos ouvintes, e continuou a narrativa:
Fui voando prá dentro da casa, e num instante saí com a caixa de balas e o meu sobrinho num braço, e os dois piás do arrumadinho no outro, em direção ao Fusca. Joguei tudo no banco de trás, e quando o arrumadinho entrou, determinei:
— O piá atrás de mim pega o carregador, o do meio e o da outra ponta carregam as balas, o arrumadinho substitui o carregador na espingarda e passa ela engatilhada prá mim, enquanto eu dirijo e encho de chumbo esses bandidos...
Nem dei tempo pro arrumadinho discutir, acendi os faróis, arranquei patinando, e desembestei arrancando capim em volta da sede, e antes de terminar a primeira volta já tinha esvaziado três carregadores. Era igual linha de produção, carregador vazio prá trás, a espingarda pro arrumadinho municiar, logo recebia ela de volta e com o braço esquerdo prá fora do carro metralhava acompanhando a luz dos faróis em direção aos matos e morros em volta da sede. Ali pela décima sétima volta comecei a ficar preocupado, porque só tinha mais umas três mil balas na caixa, mas não me abati. Manobrei e comecei a dar as voltas em sentido contrário. Isto deve ter confundido os bandidos, porque na quadragésima volta eles pararam de atirar!
Parei o Fusca, mas deixei o motor ligado e os faróis acesos, afinal, sou um homem prevenido e cuidadoso. O cano da espingarda estava em brasa, e demorou um tempo prá gente conseguir enxergar a casa e o galpão por causa da fumaceira do tiroteio. Nenhum pio, nem fora, nem dentro do Fusca. No banco de trás, os piás estavam com os olhos arregalados, e continuaram assim por mais de uma semana. Quando amanheceu, desliguei o motor, apaguei os faróis, e saímos para ver o estrago. O galpão virou uma peneira, dava prá ver do outro lado pelos furos de bala nas tábuas. Os matos em volta da sede estavam desgalhados, e onde tinha galho, não tinha folha. Por quinze dias, nem passarinho apareceu nas redondezas. Os bandidos? Nunca mais vi, nem ouvi. E foi tanto tiro que até hoje, em cada galinha que preparamos pro almoço, ainda encontramos cartuchos de 22 na moela!

Disse a frase final com o braço levantado, dedo em riste, com a voz firme para dar efeito, e esperando a reação do público, que não aconteceu. Só depois que o diretor do departamento cultural da ACACLGMPPADAMRCGBRGSA pegou o microfone e pediu “...uma salva de palmas para o coronel, gente!” é que o público percebeu que a estória tinha acabado, alguns até esboçaram um arremedo de risada, e pipocou uma e outra palma. Constrangido, o coronel tentou sair de mansinho, mas solicitaram a presença de todos os “mentirosos” no palco para a escolha da mentira vencedora. O público decidiu na base das palmas e ovação, e a mentira do coronel não deu nem pro cheiro. Foi uma situação constrangedora, pois o coronel tinha chegado como favorito, e estava saindo acabrunhado pelo vexame de não merecer nem as palmas do público.
Depois da entrega do prêmio ao vencedor, uma terneira de ano, o diretor do departamento cultural da ACACLGMPPADAMRCGBRGSA deixou o microfone à disposição dos mentirosos que quisessem dirigir algumas palavras de agradecimento ao público e à nova diretoria. O coronel se sentiu na obrigação de se justificar, pois afinal de contas ele tinha um nome a zelar, e para ele, nome e prestígio não se deve descuidar!
— Quero agradecer a oportunidade, e dizer que, infelizmente, não estava no meu melhor dia. Acordamos muito tarde, e tivemos que sair apressados. O pior é que quando fui pegar minha dentadura, que eu deixo de noite ao lado da cama num copo com água e uma colher, a água estava congelada! Como estávamos atrasados não deu tempo de acender o fogão prá esquentar a água pro café, então tive que descongelar a dentadura chupando o gelo, feito um picolé, da estância até aqui!
Fez-se um silêncio gelado depois destas palavras do coronel, que devolveu o microfone e foi indo devagar, meio de lado, para fora do palco. De repente, o público explodiu em gargalhadas, ovacionou e bateu palmas por cinco minutos sem parar, gritando em uníssono “—Já ganhou! Já ganhou!”. O coronel foi carregado pela multidão, que exigia o primeiro prêmio para ele. Para não causar problemas com o vencedor já eleito, a diretoria resolveu instituir ali, na hora, um prêmio hors-concours, e deu ao coronel, ao som da multidão em delírio, duas terneiras de ano – nas palavras do novo presidente – “... pela maior mentira jamais ouvida na região do Cajurú”.

Pois é. E o coronel então voltou para casa com duas terneiras de ano, o nome e o prestígio intactos, e a fama de ser um contador de estórias como nenhum outro apareceu por aquelas redondezas! Competência é competência, e não se discute!

5 comentários:

  1. que tal, cola fina e casca grossa também é cultura!!!
    abraço

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  2. Tiuspe disse....sera...sera mesmo a mentira mais mentirosa ouvida na regiao do Cajuru????

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  3. Tiúspe,
    Água congelada num copo na beira da cama, dentro de casa?? Só pode ser mentira, e da grossa...

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  4. É tão bem contada, essa estória, que fechando os olhos consigo me imaginar na situação. Incrível!

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  5. Viu? Viu? Eu não digo mesmo? A história verdadeira é esta que está escrita aqui, e não o que eles andam contando por aí!! Um dos protagonistas até confirma!

    E depois ainda dizem que eu exagero um pouco as coisas...

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