sábado, 10 de novembro de 2007

A Máquina, o Lobo do Homem?

Dissertação apresentada à disciplina Metodologia Científica do Curso de Ciência da Computação da FACIC – Faculdade de Ciência da Computação - Sociedade Lageana de Educação. Lages, SC, março 1999.
Desde muito antes da Revolução Industrial, a mecanização tem acompanhado a trajetória de glória e miséria do homem, e tornou-se, desde muito, objeto de pesquisas, estatísticas e estudos por parte das mais variadas entidades e correntes do pensamento teórico, de todas as partes do mundo industrializado. Ontem, a máquina, pura e simples; hoje, a máquina automatizada, informatizada. Mas, sempre uma máquina, a competir com o homem na atividade sustentáculo da economia: o trabalho produtivo. A máquina é o lobo do homem? A resposta a esta pergunta exige que identifiquemos exatamente quem responde, e em que contexto está inserido. Um claro exemplo desta afirmação serão as respostas do empresário que investe na automação de seus equipamentos e enxuga o quadro de pessoal, e do empregado preterido pelo equipamento automatizado. Enquanto este lamenta o seu infortúnio, creditando ao progresso, ao desenvolvimento de novas tecnologias e às leis predatórias do mercado competitivo a sua desgraça e a falta de perspectiva de encontrar novo trabalho, aquele contabiliza os lucros advindos do investimento na tecnologia enquanto disserta sobre as maravilhas do gênio criativo do homem e suas extraordinárias conquistas.
A máquina, que livra o homem de tarefas perigosas, insalubres, cansativas, repetitivas, falíveis, também pode tirar dele a garantia do trabalho, a segurança, o sustento, a auto-estima, a motivação. E assim é a lei de mercado: cruel, sádica, insensível, refratária às aspirações dos humildes, das minorias. Atropela-os, arrasa-os como aterradora avalanche, engolindo a tudo e a todos. Sem remorsos, sem lamentações. Quadros como este, que descrevem um sem número de situações cotidianas à nossa volta, e em todos os quadrantes do nosso planeta, preocupam-nos e, por vezes, atingem-nos em maior ou menor intensidade. E, como couraça protetora, escondemo-nos dentro de nós próprios, envoltos na ‘segurança’ de nossos empregos ou de nossa atividade profissional qualquer que seja - ainda ‘segura’, e seguimos engolindo a frustração, a ansiedade, até que uma nova avalanche aconteça e nos engula...
Esta atitude impede-nos de perceber, por detrás das ‘calamidades’ que acontecem quando empregos são extintos, quando profissões se tornam desnecessárias do dia para a noite, quando nossos produtos tornam-se obsoletos ou quando a exigência dos nossos clientes se nos parecem exageradas, que em tudo o que nos acontece é possível encontrarmos aspectos positivos que nos farão maiores, ou melhores. Muitas vezes, percebemos o benefício muito tempo depois do problema, ou ele se materializa após muito tempo de amarguras e ressentimentos. Mas nossa visão deve ser abrangente, temos que alargar nossa perspectiva, ir além do que sabemos e vivenciamos. Não é por acaso que o ideograma chinês que representa crise é formado pelos ideogramas problema + oportunidade. São nas adversidades que encontramos a oportunidade de crescermos, de melhorarmos. E assim ocorre com a humanidade desde que o mundo é mundo: de catástrofes em catástrofes, de obstáculos em obstáculos, a humanidade segue em frente, construindo a sua história e sua têmpera, evoluindo moral e materialmente, crescendo em todos os aspectos. Desnecessário dizer que muito mais vertiginoso é o crescimento horizontal, material, que o vertical, moral, e isto com certeza é, ou será, o fiel da balança.
Nesta linha de raciocínio, entendemos que por mais que a automação seja colocada na posição de pivô da crise do emprego (o problema), ela apenas faz parte do processo natural de evolução, e apresenta-se ao homem a oportunidade de criar alternativas, como, por exemplo, fomentar a prestação de serviços para acolher os postos de trabalho extintos, principalmente do processo produtivo, o que efetivamente já vem acontecendo. Ora, esta é uma solução que está funcionando e que, com certeza, não é a única, e o somatório de todas as alternativas dará os contornos da mudança de postura do homem do final do nosso século, frente ao redemoinho fantástico de culturas, conhecimentos e conquistas, dentro do qual turbilhonamos alucinadamente. Alvin Toffler nos dá uma idéia mais concreta quando diz que “O Futuro Chegou Hoje”:

“Se os últimos 50.000 anos de existência do homem fossem divididos em períodos de aproximadamente 62 anos cada um, terá havido aproximadamente 800 gerações. Dessas 800 gerações, 650 foram completamente passadas nas cavernas.
Apenas durante as últimas 70 gerações tem sido possível a comunicação efetiva de uma geração para outra, uma vez que a escrita possibilitou essa transposição. Apenas durante as últimas 6 gerações as massas humanas viram, pela primeira vez, a palavra impressa. Somente durante as últimas 4 gerações foi possível medir o tempo, com alguma precisão. Apenas nas 2 últimas pode alguém usar um motor elétrico. E a esmagadora maioria de todos os bens materiais que usamos cotidianamente, na nossa vida comum, desenvolveu-se dentro da presente geração, que é a de número 800.
Diante deste quadro, assombra-nos a idéia de que temos que mudar nossas atitudes, rever nosso enfoque da questão. Com certeza, em todas as grandes transformações da humanidade houve um estopim, um pivô, ou até um bode expiatório. E em todas elas o homem soube encontrar soluções. O diferencial do nosso século é a extraordinária rapidez com que as coisas acontecem, fazendo com que não nos demos conta do tanto que acontecem!

De todos os cientistas que já existiram no mundo, desde os princípios da civilização, apenas 7% viveram em gerações anteriores à nossa. Em outras palavras, 93% dos cientistas, desde que o mundo é mundo, vivem HOJE e estão produzindo HOJE novos conhecimentos científicos”.
Apesar de conhecer do homem a sua natureza irracional e a sua capacidade de destruição, acredito na sua imensa capacidade criativa, de adaptação, e de surpreender-se a si próprio. Ora, a máquina é criação do homem, e deve proporcionar, mais que riquezas a poucos, bem-estar e oportunidades a todos. Oportunidades de aprendizado, de novos conhecimentos, de lazer, de conquistas – individuais ou coletivas. Ela deve estar a nosso serviço – patrão e empregado. Deve prover, proteger, facilitar. Ao homem, cabe a tarefa de domesticá-la, impor limites à dependência cega de automatização, pois o progresso da humanidade não deve acontecer a qualquer preço. E aqui abordamos o desenvolvimento moral do homem, como peça chave, indispensável, à solução do caos do fim do século que passará, inevitavelmente, pelo refinamento das relações humanas, dos sentimentos e das atitudes – responsabilidade de cada um de nós. Se isto não acontece, não podemos responsabilizar a criação, e sim, o criador. Afinal, apesar da sua grandeza, o homem, e não a máquina, é o lobo do homem!

Um comentário:

  1. Interessante este artifício de medir o tempo diminuindo-o para que facilite a compreensão.
    Eu uso como unidade o "Maneco".
    Cada "Maneco" equivale a cem anos, assim sendo, Jesus esteve entre nós há apenas 20 "Manecos", e fica parecendo que foi ontem.
    Até mais.
    Beto

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