domingo, 11 de novembro de 2007

5. A Barganha do Coronel

(Esta é uma obra de pseudo-ficção. Qualquer coincidência com personagens abstratos, fatos inventados e lugares imaginados não será mera semelhança!)

O coronel Gumercindo Neto deu mais uma cuspida no capim molhado pela chuva na tarde sem graça daquela quinta-feira abafada. Estava há mais de hora debruçado na janela, pitando palheiro e pensando na lida parada. Tetê ressonava estirada no sofá, embalada pela televisão ao som da reprise de uma novela, e que ela jura que não perdeu nenhum capítulo. O gado pastava tranqüilo o capim viçoso entre os caraguatás, o Traíra fazia de conta que dormia com um olho fechado e outro aberto, cuidando ora do gado, ora do coronel, esticado nas pedras laje da calçada em frente à porta do galpão, e do rosilho escondido pelas moitas de vassoura do campo aparecia só o costado molhado pela chuva fina e constante, daquelas que não acabam nunca e que fazem um barulho nas telhas de barro que convidam para dormir ou tomar café com bolo frito. Um marasmo.Pois o marasmo acabou quando viu descendo a estrada que traz ao portão da estância, caminhando em passos rápidos e desviando das poças, o seu peão Vassourinha, que reconheceu logo pela piaçaba negra que cobria metade do rosto, das fuças até o queixo, e pelos longos cabelos molhados e escorridos sobre os ombros, e outro homem, que segurava sobre a cabeça abaixada uma pasta para protegê-la da chuva, e que não reconheceu até que chegassem mais perto, quando levantou a cabeça para ver o caminho até a casa. Era o advogado, aquele, aquele que nunca havia perdido uma causa! Arrepiou-se, cuspiu de novo, e empertigou o corpo, imaginando o que é que o Vassourinha estava aprontando, aparecendo na estância depois de tanto tempo sumido trazendo um advogado a tiracolo. E justo aquele advogado? Será que tinha alguma coisa a ver com o pesadelo da escritura das suas terras?
— Boa tarde, seu Coronel, desculpa atrapalhar, este é o doutor ad...
— Eu sei quem ele é! E o senhor, hein, seu Vassourinha, por onde é que andou? Esqueceu do serviço? Ganhou na loteria? Olha o campo, a desgraça que tá isso, como é que você faz uma coisa dessas e não avisa, nem dá satisfação?
Ignorou de propósito o advogado que, apesar da sua indelicadeza, cumprimentou-o, respeitoso:
— Boa tarde, seu Gumercindo. Não queremos incomodar demais o senhor, nossa conversa é rápida. O Sr. Vassourinha pediu minha ajuda para resol...
— Prá que você precisa de um advogado, Vassourinha? – interrompeu, ignorando de novo o advogado, que começou a se irritar.
— O Sr. Vassourinha – insistiu com firmeza – pediu minha ajuda para discutir a respeito dos direitos que acumulou durante todo o tempo em que trabalhou para o senhor, Sr. Gumercindo.
— Direitos? Mas de que direitos ele está falando, Vassourinha? Que história é essa?
— Hã... bom, coronel Arrudão, é que... bem, o senhor sabe, desde que... olha, coronel, na verdade foi o...
— Direitos trabalhistas, Sr. Gumercindo, direitos trabalhistas, por todo o tempo que o senhor forçou este pobre homem a um trabalho escravo. Isto é crime, e pelo que o seu peão relatou o senhor pode até perder sua estância como forma de indenização por tamanha exploração, Sr. Gumercindo.

O advogado falou firme, olhando ameaçadoramente o coronel, que percebeu naquele momento que tinha um problema sério para resolver. Um sério e bigodudo problema. O coronel era homem viajado, razoavelmente instruído e culto, de raciocínio rápido, ligado no mundo pelas antenas do seu inseparável Philco Transglobe de 9 bandas, e era conhecido na cidade e em toda região do Cajuru por duas marcantes características: uma irritante sovinice – faltava pouco para começar a lascar palito de fósforo ao meio para fazer dois, e uma habilidade incomum de convencer as pessoas sobre o que ele bem entendesse. Em outras palavras, além de avarento era mais liso que jundiá ensaboado!

— Trabalho escravo? Trabalho escravo?– repetiu o coronel, enquanto se dirigia quase correndo para a varanda, onde estavam o peão e o advogado molhando as tábuas enceradas com a água que escorria das roupas encharcadas – De onde tirou um absurdo desses? – e sem dar chance de ser interrompido, desandou a enumerar os incontáveis benefícios que o seu peão usufruía, a comida boa e bem feita, sem luxo mas sem carência, o teto e a cama de graça, o linimento e os curativos nos machucados, o elixir paregórico e os escalda-pés nos desarranjos e resfriados, o senhor e a dona Tetê sempre foram muito bons para mim coronel, e a vaca, Vassourinha, veja bem nunca lhe cobrei arrendo do campo nem a vacina da aftosa mas isso é fácil de se resolver, fico com a Quilemeio pelas despesas até hoje, está certo coronel parece justo, e o advogado não acreditava no que estava ouvindo, Vassourinha, veja bem você sempre foi tratado com sendo da família, a porta da casa nunca esteve fechada, você que sempre quis dormir no galpão e comer no banquinho de toco ali fora na calçada, é acho que sim seu coronel, se o senhor diz, e veja bem Vassourinha, nunca lhe cobrei a carona na carroceria da picape indo ou vindo da cidade, nem o uso das minhas ferramentas quando você arava e plantava o meu canteiro de arruda, nem as vassouras do campo e os caraguatás que você não arrancou, nem os dias parados por causa da chuva que você continuava comendo e dormindo de graça, nunca vou esquecer o que o senhor e a dona Tetê fizeram por mim coronel, e o advogado fechou a pasta e sapateava incrédulo não posso estar ouvindo isso, Vassourinha, veja bem, não quero que ninguém fique falando que eu não soube reconhecer sua dedicação, diga o que eu posso fazer por você como forma de compensar o trabalho de trazer o advogado até aqui prá nada, diga e eu vejo se posso atender, bem seu coronel eu sempre quis ter uma casinha só prá mim ali no meio do pomar, nem pensar Vassourinha, você andou bebendo daquela água, não seu coronel, pois então se atipe animal, então lá no fundo do campo seu coronel perto da cachoeira, esqueça Vassourinha o bostinha colafina chegou primeiro, então quem sabe uma meiágua de dois por dois lá na entrada do mato, piorou Vassourinha o arrumadinho de olho azul não vai deixar, ah! então não sei coronel, o advogado tentou falar o coronel levantou o dedo e fuzilou com o olhar, ele fechou a boca e engoliu em seco, assim é melhor se não ajuda não atrapalha, Vassourinha, veja bem, acho que não lhe devo prá tanto mas prá encerrar o assunto e você assinar aqui neste papel que está tudo bom e que não lhe devo nada, mas o papel está em branco coronel, eu sei Vassourinha depois eu preencho, veja bem prá que você não diga que sou ingrato eu lhe ofereço o cupinzeiro ali do pomar, obrigado seu coronel eu sempre gostei muito do pomar, mas não é o pomar sua anta é só o cupinzeiro, ah! é só o cupinzeiro coronel, tudo bem eu lhe agradeço muito assim mesmo, coronel, o senhor é um homem muito bom, ora Vassourinha, não precisa elogiar tanto, assine aqui, isso, assim mesmo, pronto o cupinzeiro é todo seu Vassourinha, obrigado, seu coronel muito obrigado.

Uma tentativa de aparte do advogado foi interrompida por outro olhar fuzilante do coronel Arrudão, e de novo engoliu sua incredulidade e indignação pela situação absurda que acabara de presenciar. Nunca havia passado por uma situação como aquela! Preferiu dar meia volta e sair pisando duro debaixo da chuva, em direção à porteira. A partir daquele momento, para o coronel ele deixou de ser aquele advogado que nunca perdeu uma causa...
— Tetê! – Arrudão chamou, enquanto guardava satisfeito o papel no bolso da camisa.
— Quifoi, amor? – perguntou a Tetê, sonolenta, da porta da varanda.
Acomodou-se na cadeira de balanço, suspirou fundo e pediu, olhando o peão:
— Traz uma xícara de café preto com bastante açúcar prá mim enquanto eu preparo outro palheiro, e uma água de privada bem fresquinha pro Vassourinha, pois temos muito a comemorar!

O Vassourinha dispensou o copo, e numa sentada bebeu no bico metade da jarra.
— Comemorar o que, amor, posso saber?
— Depois te conto, mulher, depois te conto...
Enquanto o coronel esticava as pernas cruzadas e acendia o palheiro, viu o seu peão Vassourinha, dedo em riste, troteando feliz da vida em direção ao cupinzeiro e chamando a multidão para que o acompanhasse na pregação da palavra divina. De hoje em diante, o cupinzeiro era seu, só seu.

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