sábado, 13 de outubro de 2007

3. O Peão do Coronel

(Esta é uma obra de pseudo-ficção. Qualquer coincidência com personagens abstratos, fatos inventados e lugares imaginados não será mera semelhança!)

O coronel Gumercindo Neto arrastou devagar seu pé direito enfaixado até metade da canela, apoiado num pedaço de pelego com a lã virada para baixo, pelas tábuas enceradas da varanda da sede da estância. Alcançou claudicante a cadeira de balanço onde sentou-se meio de lado por causa da dor na sambiquira e de onde se pode ver à direita, um pouco abaixo do pomar, a lagoa formada pela água da chuva e seu quase fiel rosilho atolado até os joelhos mastigando o capim fresquinho que aflora na superfície. À sua frente o início do pinheiral um pouco além da lagoa, e numa descida, o capão que esconde a sanga que divide a sede do resto do campo que vai em direção à cachoeira. À esquerda o cocho de sal do gado coberto com eternite de cuja sombra seu totalmente traiçoeiro cachorro Traíra, sentado, olha-o desconfiado, tendo ao fundo a massa azulada dos pinheiros onde estardalhaçam gralhas quero-queros e papagaios, e virando um pouco mais o pescoço se pode ver a lavoura de milho um pouco à frente da canhada que vai dar na entrada do mato. Permeando tudo, de um extremo a outro, um mar de vassouras do campo e caraguatás como o coronel jamais havia visto tantos.
Passava um pouco das três da tarde. Arrudão já havia lavado a louça limpado a cozinha varrido a casa tirado o pó brilhado o chão cuidado prá não acordar a Tuinha que dormitava o cochilo da tarde, e ele agora pitava seu palheiro. A estância estava parada em um marasmo contagiante, o gado olhava desconfiado para o Traíra que continuava sentado à sombra do cocho do sal olhando desconfiado para o coronel que olhava embevecido o gado gordo e esquartejava o cão confiado, sentado na cadeira de balanço cutucando os vãos dos dedos do seu pé esquerdo apoiado na beirada do assento, com o indicador da mão esquerda que abraçava a perna levantada, enquanto tentava lembrar quando foi que tinha visto pela última vez o Vassourinha, seu fiel e submisso peão faz tudo, que deveria manter seu campo livre daquelas pragas.
O peão era um homem rijo, alto, magro e espadaúdo, grandes olhos escuros e face encovada emoldurados por longas melenas em desalinho, com um porte de modelo de funerária que certamente teria feito sucesso nas passarelas não fossem alguns hábitos estranhos, como cultivar com orgulho desmesurado um vasto bigode como se carregasse uma vassoura de piaçaba grudada no meio da cara, com as cerdas negras cobrindo desde o buço até metade do seu queixo másculo – daí o apelido – e também por gostar de beber água de privada. No tempo que a estância não dispunha de um banheiro e se usava a casinha a par do valo, trazia a água da cidade em um garrafão, sabe-se lá tirada de que privadas; depois do banheiro construído, de vez em quando enchia um meio copo e já no terceiro gole se transformava, e de cabisbundo e meditabaixo que era, desandava a falar em altos brados, encarapitado num imenso cupinzeiro, dedo em riste, pregando a palavra divina para multidões imaginárias. Uma tristeza!
Era bom na lida, e custava pouco. Na verdade, custava nada, pois nem carteira assinada tinha e trabalhava pela comida. Dormia no galpão, carpia a lavoura, virava a terra, abria valo em banhado e beira de estrada, fincava palanque, tratava, desverminava e despontava os animais, tirava o leite, rasqueava o rosilho, consertava telhado cerca e taipa, catava pinhão, lavava o Traíra com escova e creolina – era o único que conseguia – fazia queijo e sabão, roçava o campo, arrancava vassouras e caraguatás... O coronel deu uma cuspida e resmungou: — Mas quál... estes caraguatás já pagam imposto de tão grandes, nem o meu milharal é tão viçoso... Nessas alturas o Arrudão se incomodou com o campo sujo, com o sumiço do Vassourinha, com o Traíra olhando prá ele. Deu uns gritos para o cão sair de perto do cocho pras vacas poderem comer o sal, mas ele continuou sentado, impávido, olhando o coronel, que então calçou um chinelo de borracha que um dia havia sido uma bota Sete Léguas que teve seu cano cortado rente ao calcanhar com uma faca de serrinha. Foi quicando num pé só, desviando as vassouras, pulando os caraguatás em direção ao cão, que se ergueu e a cada pulo dava meio passo atrás e piscava os olhos, até que à distância de um cuspo disparou pros lados de onde estava o rosilho atolado na lagoa. O coronel apoiou-se no palanque de eucalipto que sustentava a cobertura do cocho para descansar o pé enfaixado e num instante foi cercado pelo gado que se espremia para alcançar o sal.
Coincidência ou não, bem ao seu lado estava a Quilemeio, uma beleza de vaca que pertencia ao Vassourinha, com pêlo curto e brilhante malhado de branco e café com leite, com quase nada de berne e carrapato. Arrependeu-se de não ter cobrado do peão o arrendo do campo antes do seu sumiço. Paciência, ficava com a vaca pela despesa. Da casa ouviu a voz da Tuinha, que gritava com as mãos em concha na boca:
— O café tá pronto!
— Tetê! Ô, Tetê! – gritou, enquanto reiniciava o caminho de volta pulando num pé só.
— Quié? – gritou ela, voltando à porta da casa.
— Sabe do Vassourinha? O campo está um desastre. Não vi mais ele!
— Não, amor! – gritou ela. Arrudão deu impulso para pular um imenso caraguatá. — Mas na última vez que vi ele perguntou se eu conhecia um advogado, aí eu indiquei aquele que você disse que nunca perdeu um caso!
Todas as dúvidas do coronel dissiparam-se, a luz do entendimento brilhou alumiando as trevas do seu pesadelo fugaz, e clareou a estampa do Vassourinha recebendo a escritura das suas terras das mãos do juiz trabalhista, rindo sarcásticos e bebendo água de privada os dois, mais a horda de advogados que riam sarcásticos, todos com a mesma cara daquele advogado que nunca perdeu um caso, e que a Tuinha indicou...
Isso tudo se passou enquanto pulava a bromeliácea. Ao chegar do outro lado, os céus trovejaram, as trombetas soaram, o mundo desabou e o chão virou uma massa mole, verde e quente sob seu pé, que resvalou subindo em direção às nuvens e levando com ele o chinelo mais toda a bosta de vaca do Cajuru mais as outras três patas do coronel, que desabou de costas esparramado sobre o caraguatá espinhento! Antes que desse um gemido, um chinelo de borracha todo melecado descido dos céus esborrachou-se na sua testa e um dilúvio de estrume cobriu sua cara escondendo o narigão adunco.
Atordoado, deitado sobre um colchão de espinhos e ferido de morte em seu orgulho, o coronel ouviu um relincho e um uivo que lhe pareceram familiares. Há quem jure, e a Tuinha é uma delas, que nessa hora um cão e um cavalo bateram suas patas dianteiras direitas espalmadas, e saíram a rolar pelo capim rindo como só um quase fiel cavalo e um totalmente traiçoeiro cão sabem fazer...

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