domingo, 7 de outubro de 2007

2. A Partilha das Terras do Coronel

(Esta é uma obra de pseudo-ficção. Qualquer coincidência com personagens abstratos, fatos inventados e lugares imaginados não será mera semelhança!)

O coronel Gumercindo Neto ajeitou o travesseiro de penas de ganso sobre o assento da cadeira de palha ao lado da mesa de tábuas antigas pintada de azul disfarçando as marcas do dia a dia da cozinha de estância por décadas a fio. Apoiou as nádegas e soltou o peso do corpo com cuidado e vagarosamente sobre o travesseiro, e gemeu com a dor na sambiquira, resquício de um acidente sem importância envolvendo o rosilho na manhã daquele dia. A bem da verdade, a dor maior era do ego, ferido no seu orgulho de peão da lida campeira, mas outras preocupações mereciam sua atenção com mais urgência. O rosilho podia esperar. Tirou do bolso da camisa um toco de fumo em rolo embrulhado em saco plástico, e da cinta um canivete Tramontina com um lado do cabo já sem a baquelita imitando marfim. Ajeitou-se no travesseiro, com as costas da mão limpou algumas migalhas de pão dormido do desejum que acabara de tomar e começou a picar o fumo, usando a depressão na tábua no canto da mesa que se formou por anos e anos de preparo do palheiro matinal. Esticado no chão à sua frente seu cachorro Traíra, companheiro na lida mas traiçoeiro de primeira, olhava o coronel com olhar pidão. Tetê, sua companheira de muitos invernos, ainda ressonava embrulhada nas cobertas, e ele cuidava para não acordá-la.
Ela era uma mulher disposta, já nos cinqüenta mas conservada e fornida, bem ao gosto do Arrudão. Acostumada com a rusticidade da estância, não tinha fricotes e tudo estava bem, desde que o coronel mantivesse a casa limpa, a louça lavada e o chão brilhando, por isso ele andava pela casa só de meias, arrastando dois pedaços de pelego com a lã virada para baixo. O que ela não gostava era do seu nome Tertulina, registrado para homenagear seu bisavô por parte de mãe, e fazia questão de ser chamada pelo apelido dos tempos de criança. O coronel, por sua vez, a tratava por Tuinha principalmente nos momentos de mais intimidade.
A primeira providência era traçar um plano de defesa de sua propriedade que acabasse de vez com as pretensões desse bando de corvos prestes a avançar crocitantes sobre a carniça. No caso, sobre as suas terras. A divisão já estava sendo feita assim, de boca, em tom de brincadeira, como se fosse piada, mas ele sentia que havia outras intenções além da troça. Aquele trecho de mato, por exemplo, a meio caminho entre a sede e a cachoeira, com a sanga e a ponte que ele fez com tanto esmero e mais adiante um açude natural, que um sabidinho que fala javanês astutamente transformou em um prolífero criadouro de peixes, já era arvorado como seu por um doutorzinho da cidade, casca grossa de nascença, metido a entendedor de anzocas e minhóis e latifundiário em outras plagas. O mato a sanga a ponte o açude e mais o pinheiral a par da sede, azul de tão fechado, que todo ano forra as bruacas do coronel com a venda do pinhão. Seu plano secreto é monopolizar a produção desta semente e de peixes na região do Cajuru.
Um bostinha da cidade, teimoso de nascença, metido a entendedor de sofituér e choque em fio de luz e nem um pouco chegado ao trabalho pesado – meio cola fina, dizem alguns – já se acha dono de todo o fundo do campo que margeia o rio Mansinho, com o capão e a cachoeira. A cachoeira e mais a sede com a casa, o galpão, a encerrinha, o pomar, tudo. Menos as ferramentas, é claro, pois não se ajeita muito bem com elas. Anda falando em instalar teleférico nos morros e lajotar a trilha da cachoeira. Já um outro arrumadinho da cidade, olho azul de nascença, metido a entendedor de ferretas e maçanolhos e mediador de discussão em reunião de condomínio, garante que já escriturou em seu nome a entrada do mato, com aquelas árvores esguias e a trilha coberta de folhas, especial para piqueniques e pileques. A entrada do mato e mais a canhada um pouco antes, quase a par da sede e à esquerda do pinheiral que – garantiu, administradoramente – ‘... vou transformar num volumoso e profundo lago e também prolífero criadouro de espécimes aquáticos sem causar nenhum dano ou prejuízo sócio-ambiental e esta feliz iniciativa transformará a vida marginal e será opção de renda e garantia de desenvolvimento sustentado à toda uma população ribeirinha da região da recém criada Área de Preservação Ambiental do Cajuru, antigo anseio desta comunidade!’ Tem um trecho de mato, a meio caminho entre a entrada de mato do arrumadinho e o açude do doutorzinho, com uma pequena elevação numa clareira, circundada por um terreno mais baixo que o Mansinho alaga nas chuvaradas e que depois tudo fica coberto de musgo, o chão e os troncos e as pedras. Enquanto o dia passa, o sol subindo ou descendo faz um jogo de luz e sombra dum verde que não se acredita, e quando bate o sol a pino, um verde brilhante ofusca e extasia a alma de qualquer vivente que diante de tamanha beleza tira o chapéu por respeito. Puis, também já tem dono, é um esquentadinho da cidade, açucarado de nascença, metido a entendedor de tíbias perônios e voadoras, e colocador de azulejo em fundo de açude nas horas vagas. Diz que já tem projeto e licença ambiental para transformar aquele paraíso em área protegida para a prática de estudos transcendentais e exercícios aeróbicos pulmonares contínuos. Conta com a valiosa ajuda de um sócio, um enrugadinho da cidade, estudante transcendental de nascença, metido a entendedor de ervas daninhas e suas transcendências, e esforçado lanterninha em mostras de cinema e teatro, que associou-se à ele para poder dividir o trabalho porque, como o bostinha cola fina, não é muito afeito a qualquer esforço.
Ora... – resmungou, catando as últimas migalhas sobre a mesa — ... sobraram alguns corvos que não disputam nem um pedacinho da propriedade. E tem ainda aquela ‘questã’ da escritura na Junta... Respirou fundo e recostou-se na cadeira. — Muito estranho – mastigou o coronel. Absorto em seus pensamentos deu mais uma pitada e com um piparote bateu a cinza do palheiro que caiu, junto com algumas fagulhas, dentro do olho pidão do cão à sua frente. Lembrou tarde demais o motivo do nome do cachorro! O Traíra ganiu e, de um salto, abocanhou o seu pé direito com meia joanete pelego unha encravada e tudo! Deu umas nove mastigadas, e enquanto o coronel, incrédulo, segurava o pé e um grito de dor para não acordar a Tuinha, o cão ainda levantou a pata traseira, urinou na sua perna esquerda, latiu provocante e saiu porta afora, focinho erguido, vitorioso e devidamente vingado...

Um comentário:

  1. Simone de Ávila Araujo31 de outubro de 2007 00:11

    Oi, vc já se pesquisou hoje??? (http://www.google.com.br/search?hl=pt-BR&q=saga+do+cajuru&btnG=Pesquisa+Google&meta=)

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